O Piauí já não se move em bloco. Os votos começam a fugir do roteiro, sinal de que o enredo maior ainda está sendo reescrito. Seis deputados federais e dois senadores do Piauí votaram contra a derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao projeto conhecido como PL da Dosimetria, que permite a redução de penas de condenados, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pelos ataques de 8 de janeiro de 2023.
A votação da dosimetria nesta semana acabou virando mais do que um debate técnico. Em Brasília, o que se viu foi um termômetro político, e o Piauí apareceu dividido, com direito a votos que fugiram do script.
Na Câmara, o estado se partiu entre o “sim” de Dr. Francisco, Flávio Nogueira, Florentino Neto, Merlong Solano e Júlio César, e o “não” de Átila Lira, Júlio Arcoverde, Marcos Aurélio Sampaio e Jadyel Alencar.
A divisão em si não seria novidade. O que deu tom político à votação foram dois nomes: Marcos Aurélio e Jadyel Alencar.
Os dois votos surpreenderam porque quebraram expectativas de alinhamento.
No caso de Marcos Aurélio , o estranhamento vem do posicionamento dentro do próprio campo. Ele integra um posicionamento que, em muitos momentos, opera com pragmatismo e costuma dialogar com o governo em votações sensíveis. O voto contrário, nesse contexto, soa como um gesto de maior autonomia ou, no mínimo, de que não há alinhamento automático.
Já o voto de Jadyel Alencar surpreende por outro motivo: trajetória e leitura de ambiente. Ele vinha sendo visto como um nome mais próximo de uma linha de composição, sem grandes movimentos de ruptura. Ao votar “não”, se distancia desse perfil esperado e entra num campo mais afirmativo politicamente. É o tipo de movimento que reposiciona o deputado.
No Senado, o cenário foi mais linear: Marcelo Castro e Wellington Dias votaram “sim”, enquanto Ciro Nogueira ficou no “não”.
Na quarta-feira (29), a derrota de Jorge Messias em uma votação considerada histórica já tinha mudado o clima em Brasília. O episódio uma derrota ao governo federal e abriu espaço para movimentos mais independentes, como os que apareceram logo depois na análise da dosimetria.
O que é a dosimetria?
O projeto cria uma regra específica para a aplicação das penas de dois crimes contra a democracia: abolição violenta do Estado Democrático de Direito, com pena de 4 a 8 anos de prisão, e golpe de Estado, com pena de 4 a 12 anos.
Segundo o texto, se os dois crimes forem cometidos no mesmo contexto, as penas não poderão ser somadas.
Na prática, o projeto de lei permite a redução de penas de condenados por atos golpistas, incluindo os ataques de 8 de janeiro de 2023.