O Piauí vive, de novo, aquela fase em que a política parece funcionar na lógica do vai e volta. Deputados que deixaram a Assembleia para ocupar secretarias agora encaram o relógio eleitoral batendo na porta. Para disputar a eleição deste ano, a regra prática é simples: quem está no comando de pasta precisa desocupar o cargo no prazo certo. Só que, no Piauí, isso não é só um movimento individual. Virou uma engrenagem que puxa todo mundo junto.
Quando um deputado vira secretário, abre-se uma vaga. Aí entra o suplente, que assume o mandato, monta equipe, organiza base, muda rotina, passa a ser cobrado como titular, começa a colher o peso e também o gosto da cadeira. Só que a política não espera estabilizar nada. Quando chega o período de desincompatibilização, a turma que estava no Executivo precisa sair e, muitas vezes, volta para reassumir o mandato. Resultado: o suplente que estava “no jogo” vira passageiro de um ônibus que já estava em movimento. Desce sem tempo de concluir o que começou e, em muitos casos, sem garantia de continuar no protagonismo.
A confusão aumenta porque a eleição não mexe só com quem estava nas secretarias. Mexe também com quem estava na suplência. Há suplentes que assumiram e agora também querem disputar. E aí aparece um impasse que é mais político do que jurídico: não dá para acomodar todo mundo. Se o suplente está com o mandato e decide que vai para a disputa, ele também entra no funil do calendário. Não pode tratar o cargo como escada infinita, subindo e descendo conforme convém, sem pagar o preço das incompatibilidades. E, se ele sair do mandato para fazer o caminho eleitoral, não dá para “compensar” com uma secretaria, porque o mesmo prazo vale para secretário. Em outras palavras, a porta que fecha para um fecha para outro também.
O que sobra é um cenário de instabilidade que a população sente, mesmo sem acompanhar os bastidores. A cada troca, muda o tom, muda a prioridade, muda o responsável, muda a fila. Secretarias viram pontos de passagem, não centros de execução. A Assembleia vira sala de espera, ora cheia, ora esvaziada, dependendo do vento. E o debate público perde qualidade porque, no fundo, muita gente deixa de discutir política pública para discutir posicionamento, federação, composição e sobrevivência.
Essa dança das cadeiras é ruim por dois motivos. Primeiro, porque transforma o Estado num tabuleiro de acomodações. Segundo, porque normaliza uma política em que o mandato não é tratado como missão de quatro anos, mas como peça de um arranjo maior, ajustado conforme a conveniência eleitoral. Não é crime, nem novidade. Mas é um vício de funcionamento, daqueles que vão ficando tão comuns que parecem naturais, até o dia em que a conta chega em forma de obra parada, programa descontinuado e secretaria que muda de rumo a cada trimestre.
O Piauí não vai parar por causa disso, claro. Sempre aparece alguém para assinar, tocar e resolver. O problema é o custo invisível: energia pública gasta com rearranjo, tempo perdido com transição e uma sensação permanente de que o governo e a Assembleia vivem em modo provisório. Na prática, o eleitor assiste a um filme repetido. Trocam os personagens, mas a cena é a mesma: saiu para a secretaria, entrou o suplente, agora volta para o mandato, sai o suplente, e o calendário eleitoral passa a mandar mais do que o planejamento.
Se a política quer recuperar credibilidade, precisa ter coragem de fazer o básico: tratar mandato como compromisso, secretaria como responsabilidade e eleição como consequência, não como motor de todas as decisões. Porque quando o Estado vira corredor de passagem, quem fica parado no fim do trajeto é sempre o mesmo: o cidadão, esperando o serviço funcionar como deveria, sem depender de quem está sentado na cadeira naquela semana.