BB
Faleceu ontem, em Saint-Tropez, França, a atriz e ativista Brigitte Ann-Marie Bardot, aos 91 anos. Hoje, nasceu uma lenda que vai fazer muitas gerações pensarem sobre suas atitudes. Sempre envolta em ar de mistério e polêmica, a francesinha veio ao mundo em berço de ouro, primogênita de uma família rica. Ingressa desde cedo num caldo de cultura que explodiu depois da Segunda Guerra Mundial. A humanidade parecia ter pressa de progresso em todos os campos.
Precoce
A mocinha que queria ser bailarina, aos 15 anos, ingressou no showbizz posando para capa da revista Elle. Aos 17 já estava na telona. Aos 22, após fazer participações em algumas produções, deixou o mundo assombrado com a sua naturalidade, beleza, sensualidade e principalmente, carisma. Sob a direção de Roger Vadim, estrelou “Et Dieu... créa la femme”, que impactou a indústria cinematográfica. Bardot tornou-se celebridade da noite para o dia. Sozinha liberou os grilhões de inúmeras mulheres pelo mundo.
Locomotiva
A menina criada sob rígida educação, que viveu parte da adolescência na Paris ocupada pelos nazistas, tinha pressa em ser livre. Suas personagens deram asas às mulheres. A escritora e filósofa, Simone de Beavouir, no livro “A Síndrome de Lolita”, contextualizou a presença de BB como “uma locomotiva da história das mulheres”. Se o mundo masculino a desenhou com sex symbol, o feminino a viu como representação da mulher livre, dona de si, de suas escolhas e suas consequências.
Estética
A arte também a consagrou no gênero difundido por suas composições de personagens, que personificavam o desejo reprimido, guerreando com a hiprocrisia. A Nouvelle Vague trouxe luz à critividade e à imaginação do cinema de autoria. O diretor, roteirista, inventava com sua narrativa em luz e sombra. Desafio à tradição de contar histórias em construção lógica e previsível. Com baixíssimos orçamentos, desafiava o jeito de dizer e ilustrar as coisas. O nosso Cinema Novo tem influência na Nova Onda que veio da França.
Fenômeno
Jean-Luc Godard, ícone do gênero, a eternizou em “O Desprezo”, de 1963. Juntamente com François Truffaut, são referenciais no período. Apesar de boas atuações, só ganhou um prêmio e recebeu indicação a um BAFTA. De 1956 a 1973, BB manteve a hegemonia do olhar. Todos queriam vê-la. Era gritaria, transe, fascínio, encanto de levar às barras da histeria. Um ídolo pop mundial. Seguida e perseguida dia e noite. Os fotógrafos não davam folga. Uma imagem inusitada dela poderia garantir capa, vender inúmeros exemplares e render excelente cachê. A liberdade estava ficando cara.
Búzios
Tentando fugir do mundo artificial que se formava em seu entorno. Em busca de pessoas de verdade, que não precisam encenar nem eram obrigadas a agradá-la e serví-la, conheceu um lugar mágico. Do romance que manteve com o brasileiro Bob Zagury, atleta do time de basquete do Flamengo, nasceu mais um fenômeno, o surgimento de uma cidade. Distrito de Cabo Frio, Armação dos Búzios passou de uma pacata praia de pescadores artesanais a point do turismo mundial. Suas passagens em 64 e 65 mundaram o local para sempre e rendeu-lhe uma estátua de bronze olhando para o mar de um azul cristalino.
Animalismo
Em 1973 jogou a carreira de sucesso para cima. Aos 39 anos cansou-se do cinema e voltou-se 100% à causa animal. Mais uma vez, BB libertou-se dos grilhões que ela mesma criara e passou a moldar novos valores à sociedade. Sua entrada no universo organizou a luta e o movimento. A criação do instituto que leva o seu nome pautou o mundo com temas que nunca vinham à tona. A defesa dos que não têm vez nem voz ecoou no mundo com sua peleja intransigente.
Animalismo
Bardot canalizou a fama, a beleza, a fortuna e o prestígio em favor de uma causa, que dava os primeiros passos no movimento que se tornou mundial. Foram muitas frentes de defesa e parcerias com outras grandes entidades que lutam em defesa do meio ambiente. A ativista inspirou a criação de várias outras instituições animalistas. E continua motivando as novas gerações em seguir na luta. No meio animalista, ela é mais que estrela, é uma verdadeira deusa.
Foquinhas
Em sua luta mais emblemática, mandou-se para o Círculo Polar Ártico. Nas lhas geladas do Canadá foi encarar os assassinos dos filhotes de foca. Com no máximo duas semanas, os bebês mantém um lindo pelo branco, fofinho. Logo depois, passa a ser acizentada e perde o interesse comercial. Com a pele dos inocentes, belos casacos adornavam as mulheres cheias de si e vazias de valores. A peça era exclusiva do guarda-roupa das ricaças. Ostentado como troféu que poucas poderiam conquistar. Símbolo de degradação humana.
Subida
Brigitte derubou o casaco branco de filhote de foca do Ártico de seu lugar de luxo e mostrou como são fúteis as rodas de poder. Ela obrigou a moda a alinhar-se aos valores propagados pela defesa ambiental. Da mesma forma aconteceu a decadência dos casacos de Mink. Uma a uma as peças oriundas de animais, conquistadas com sangue e matança de inocentes, foram retiradas de seu posto de topo de valores e passaram à posição de degradação do comportamento humano pela futilidade. A atriz forçou o mundo a subir um degrau moral.
Contradições
Sua relação com o único filho nunca foi segredo. Em seu livro de memórias, afirmou que não nascera à maternidade e revelou suas agruras. O ex-marido, pai de Nicolas, e o filho a processaram. Posteriormente, Charrier, o ex, publicou livro e mostrou cartas apaixonadas dela ao filho, quando era garoto. Desdizendo sua assumida indiferença maternal. Em sua trajetória, passou de progressista a conservadora. Na década de 90 casou-se com liderança da extrema direita francesa e incorporou um discurso de ódio. Racismo, xenofobia, homofobia vieram à tona em declarações públicas que foram parar em vários processos na Justiça.
Legado
A ativista torrou sua fortuna e investiu tudo na causa animal. Particularmente nunca abriu mão do conforto, mas viveu sem luxos. De herança, deixou ao filho o legado. O que pode ser julgado como incoerência faz parte da natureza de todo ser humano. O que pode ser condenado como desprezo e abandono ao filho consaguíneo, fica menor diante das milhares de vidas que salvou, ajudou a salvar e vai seguir servindo de exemplo aos futuros animalistas que ainda não nasceram e vão salvar outras vidas
Absolvição
Madame Bardot dizia que dedicara sua beleza e juventude aos homens. E sua sabedoria e experiência aos que não tem voz, os animais. Ela sempre foi muito transparente. Assumiu suas posições com firmeza. Até quando estava equivocada. E pagou caro por isso. Como diz o ditado: “Não existe ninguém santo. Existe gente mal investigada”. É tão verdade que a figura do Advogado do Diabo foi criada pelo Vaticano para garantir o questionamento total do(a) candidato(a) a santo(a). Se eu fosse o juiz de sua caminhada, estaria absolvida.