Quebradeiras de coco transformaram saber ancestral em organização, renda, proteção ambiental e cultura, provando que tradição não é o que ficou parado no passado.
O golpe seco no coco apoiado sobre o machado. Toc, toc, toc. Quem conhece os babaçuais sabe. Antes do azeite, da farinha, do sabonete ou do dinheiro apurado da venda, a mulher sentada no chão negocia pacientemente com uma das embalagens naturais mais resistentes que a natureza inventou. O babaçu não se entrega com facilidade.
Neste 24 de setembro, Dia Estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, elas se reúnem na comunidade Amargosa, em Esperantina. Tem feira agroecológica, encontro de gerações, homenagem, conversa, competição de quebra. E o item mais importante, a voz das quebradeiras.
O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu escolheu para a celebração a frase que resume território e existência. “Somos quebradeiras, somos território, somos vida”. A comemoração chega em ano especial. Saiu em junho, a Lei Federal nº 15.431, reconhecendo o ofício das quebradeiras do Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará como manifestação da cultura nacional.
Saímos na frente. Desde 2022 que a legislação piauiense reconhece como patrimônio cultural do estado a coleta, a quebra, os produtos e o próprio modo tradicional de produção.
Cultura não é apenas o que sobe ao palco, entra em museu ou recebe moldura. Cultura também senta no chão, estende as pernas, firma o machado e sabe exatamente onde bater para abrir o coco sem destruir a amêndoa.
O conhecimento carrega raízes indígenas, camponesas e extrativistas. Atravessa gerações pela prática e pela oralidade. A mãe ensina à filha, a avó corrige o movimento, outra mulher explica o ponto do azeite, alguém sabe quando colher, alguém conhece a palmeira, alguém guarda a receita. É tecnologia anterior ao manual de instruções.
Como toda boa tecnologia, foi aperfeiçoada. Do babaçu sai um mundo. A amêndoa vira azeite e óleo. O mesocarpo pode virar farinha. A palha se transforma em cestaria, esteira e artesanato. O endocarpo serve à produção de carvão. Há sabões, sabonetes, biojoias e outros derivados.
A Cooperativa Interestadual das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu, criada em 2009, organiza grupos produtivos do Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins justamente para avançar no beneficiamento e na comercialização. A sabedoria popular costuma dizer que do babaçu tudo se aproveita. Menos o preconceito de quem ainda imagina que é economia menor.
Segundo o IBGE, a extração de babaçu movimentou R$ 77,6 milhões no Brasil em 2024. O Piauí respondeu por aproximadamente R$ 8,7 milhões. É o segundo maior valor entre os estados. Atrás apenas do Maranhão. O cálculo se refere à produção extrativa registrada, não a toda a riqueza acrescentada depois. Quando a amêndoa passa a ser azeite, óleo, alimento, sabão ou cosmético. Lição elementar de economia grande demais para uma roda de mulheres quebrando coco.
Quem vende apenas a matéria-prima fica com a menor parte. Quem beneficia, embala, organiza, comercializa e constrói marca começa a disputar outros pedaços da renda. A cooperativa fez o que os economistas chamam de agregação de valor. As quebradeiras aprenderam isso antes.
Nos anos 1980, quebradeiras começaram a ampliar a presença em sindicatos, associações e clubes de mães. Em 1991, mulheres de Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins realizaram o primeiro encontro interestadual. A articulação cresceu até consolidar o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, o MIQCB. A pauta deixou de ser apenas o preço da amêndoa. Incluiu terra, livre acesso aos babaçuais, direitos das mulheres, preservação ambiental, agroecologia e autonomia econômica. A história demonstra uma coisa simples. Quebradeira sozinha tinha coco. Muitas quebradeiras juntas passaram a ter movimento.
No Piauí, duas mulheres ajudam a contar dimensões diferentes da caminhada. Chica Lera, Francisca Rodrigues dos Santos, liderança histórica dos babaçuais do norte do estado. Nome que se mistura à organização das comunidades, à defesa das palmeiras e ao reconhecimento dos direitos das mulheres extrativistas. Em junho deste ano, foi homenageada como patrimônio vivo pela trajetória.
A outra é Regina Sousa, que conheceu o peso do coco antes do peso dos cargos públicos. Nascida em União, contou no Senado que foi quebradeira até os 17, 18 anos. Tornou-se professora, dirigente sindical, foi a primeira mulher a representar o Piauí no Senado e, anos depois, governadora do estado. A mim, em entrevista ao programa Expresso do Meio-dia, revelou que juntava os trocados para comprar material escolar e ajudar nas despesas quando foi estudar em Parnaíba.
A biografia produz cena poderosa sem enfeite. A menina que quebrava coco tornou-se senadora e governadora. Regina não inventou a organização das quebradeiras. Foram as próprias mulheres que articularam comunidade por comunidade, reunião por reunião, enfrentando cercas, proprietários, invisibilidade e uma quantidade respeitável de gente acostumada a decidir por elas. O papel institucional veio depois.
Durante o governo de Regina Sousa, entrou em vigor, em dezembro de 2022, a Lei nº 7.888. A Lei Babaçu Livre do Piauí reconheceu o patrimônio cultural e estabeleceu instrumentos de proteção dos babaçuais e de acesso das comunidades.
A regulamentação da política continua avançando. Em fevereiro deste ano foi instalada comissão de monitoramento da lei. Em junho, um grupo de trabalho começou a estruturar o mapeamento das áreas de incidência de babaçuais.
Economia e meio ambiente deixam de ser assuntos separados. A quebradeira precisa da palmeira em pé. Se o babaçual acaba, acabam a coleta, a renda, a alimentação, o saber, o artesanato e a própria cultura construída ao redor dele. Quando as mulheres defendem livre acesso, combatem derrubadas, queimadas e destruição dos babaçuais, não estão preservando uma fotografia bonita da paisagem. Protegem uma fábrica viva que não precisa ser derrubada para produzir. É economia sustentável antes que a expressão ficasse elegante em seminário internacional.
Não convém romantizar. É trabalho pesado. Houve e há conflitos por terra, cercamento, dificuldade de acesso, desvalorização do produto e ameaça aos territórios. Tradição, quando significa apenas manter mulheres pobres fazendo trabalho duro, merece ser questionada.
A grande conquista não pode ser garantir que a filha da quebradeira seja obrigada a quebrar coco. Deve ser permitir que ela possa continuar, se quiser, encontrando renda, tecnologia e dignidade suficientes para que permanecer seja uma escolha.
O futuro chegou nos cocais. Quebradeiras e jovens de comunidades piauienses começaram a receber formação para usar drones, geotecnologias e ferramentas digitais no monitoramento dos babaçuais e na defesa dos territórios. O machado continua no chão. O drone subiu.
É erro imaginar tradição como peça de museu condenada a repetir eternamente o passado. Tradição viva aprende. Muda. Incorpora ferramentas. Faz cooperativa. Descobre mercado. Produz cosmético. Usa celular. Levanta drone. Discute lei. Vai a Brasília. Volta ao babaçual.
O coco continua duro. As mulheres quebradeiras também. Depois de muitas décadas, alguma coisa finalmente começou a quebrar além da casca.