Coluna aponta verbo que vai fazer a diferença na linguagem em 2026

O texto para finalizar o ano vem profetizando que toda palavra tem força. Dito ou escrito, o verbo traz em si além do que os significados podem decifrar.

Quando iniciei 2025, a coluna Lugar de Fala não estava no planejamento de tornar-se diária. Eram textos muito longos e monotemáticos. Em junho deste ano a ideia nasceu, foi tomando forma e dimensão. Passei mais um mês amadurecendo, pensando, refletindo, pesando e contrapesando assumir o compromisso de manter a escritura de uma coluna com muitos temas. Acrescentando à Arte e Cultura, Meio Ambiente, Turismo, Animalismo, Espiritualidade e Comportamento, ajustei como queria e iniciei em 5 de agosto. Essa é a edição 125 no novo formato. 

A escritura diária é uma atitude que consegui concentrar em uma palavra: imiscuir. No sentido cultural tem uma pretensão de acrescentar outras ideias às postas. Uma intervenção consciente em narrativas, complementando ou mostrando facetas não visíveis. Uma proposta do uso crítico da palavra como instrumento, ferramenta colaborativa na edificação de uma realidade menos embaçada. Isso é, assumidamente, correr o risco de desagradar, de ser acusado de “politizar demais” e balançar zonas de conforto históricas, impregnadas pela poeira do tempo.

Imiscuir-se, como crítico cultural, é assumir a responsabilidade simbólica na construção de um método que recusa o lugar do comentarista. Como faço parte de todo o universo que é minha matéria-prima, frequento, circulo, construo, colaboro, de dentro. A ação está em fusão com a própria linguagem. É um procedimento estético consciente. Provocar a ânima da arte, que não aceita mediação, neutralidade, tutela moral, conceito engessado, pressão ideológica, orientação política. A arte é livre e libertária. 

A escrita com olhar crítico é gesto que sabota o bom gosto imposto com pressão estética. É abrir a margem vulnerável de também ser criticado. É corromper fronteiras e apresentar novos territórios com proposições criativas. É infiltrar o experimentalismo e impulsionar como célula de sobrevivência de artistas. É laboratório de desobediência, promovendo curto-circuito entre tradição e vanguarda. Toda arte que não incomoda é natimorta. É só adorno. Toda crítica que não questiona já está corrompida pelo coro dos contentes.

A escolha entre distribuir perfumaria e oferecer reais olores é a aposta para destravar uma institucionalização de bens culturais bem comportados. É romper com o óbvio e a subserviência. A arte não pode ser pautada por norteamento administrativo. Aí é entretenimento. Às vezes estão vestidos com o mesmo figurino, mas são totalmente distintos. É quebrar o protocolo da previsibilidade, que enfraquece a obra, que faz fugir a obra-prima do alcance de nosso tempo. É esclarecer que a incomodação artística não tem remédio e não será resolvida com conquistas de editais. 

Quero escrever sobre a lucidez de quem faz boas escolhas à comunidade artística-cultural. Quero aplaudir o gesto e a gestão de quem permitir-se ouvir posicionamentos adversos com coragem, respeito e atenção. Quero que o Piauí não precise pedir licença para mostrar o quanto é lindo e rico culturalmente. Riqueza que não é inanimada. Salta saltitante de corações e mentes de mulheres, homens e demais gêneros que confluem para o mesmo mar. Desaguam no oceano do imaginário. E nos trazem originalidade em muitas formas. Autenticidade em vozes, cores e texturas. Criatividade pulsante em forma de arte. Memória, história, linguagem, invenção, imaginação, realidade e fantasia criativa serão alvo do imiscuir e vão frequentar as páginas de um 2026 com caminhos abertos para nós. Sempre usando muita IA – Inteligência Artística.