Liderança de Comunidades de Terreiro protesta contra show de Claudia Leitte em The

Rondinele Santos publicou em seu perfil no instagram Nota de Repúdio condenando contrato público de cantora investigada por intolerância religiosa.

Religiões

O terreiro de matriz afro mais antigo do Brasil, historiografado, está para completar 200 anos. A Casa Branca do Engenho Velho, que nasceu na Barroquinha, chegou muito pura ao país. A fundação seguiu os ritos que haviam desembarcado direto de Oyó. De onde acabara de chegar em Salvador, escravizada, Iyá Nassô ou Francisca da Silva. Uma sacerdotisa nagô. Juntamente com outras Iyás, fundou o Ilê Iyá Omi Axé Intilé, que após perseguições, mudou de terreno, mudou os fundamentos, o novo xirê, localizado na Federação, foi nominado Ilê Axé Iyá Nassô Oká. 

Obstinada

Fundou e voltou para África, deportada, a pedido. Seus filhos foram acusados de envolvimento na Revolta dos Malês. Sabiamente, a Ialorixá preparou a defesa dos entes, provando sua inocência e negociando o retorno ao continente africano, com a promessa de nunca mais retornar ao Brasil. Uma história riquíssima. Repleta de plot twist. Inspiração para um roteiro original. Daria um longa. Renderia série. Iyá Nassô cumpriu sua missão de semear uma enorme quantidade de religiões, praticadas por milhões de pessoas pretas, brancas, amarelas...com a cara do Brasil.

Mãe Neuza de Xangô, líder religiosa da Casa Branca. Foto: reprodução redes sociais

Matriarcal

Mama África, ou melhor, Alkebulan, também maternizou os ritos, construção de cultos e suas derivações. Uma riqueza sem igual de contribuição na construção que fundamenta nossa teia social. Dela também vêm os alimentos, instrumentos, os pratos, os ritmos, os cantos, as danças, os colares, os turbantes. Há uma Cultura milenar incrustrada, mixada, amalgamada com a dos donos da terra. Nossos povos originários têm seu próprio panteão. O encontro promoveu novos rituais e edificou uma magnífica, rica, diversa e poderosa colcha que envolve uma profusão de religiões.

Barco de Oxum na Casa Branca. Foto: reprodução redes sociais

Perseguição

O Candomblé é o ponto de partida, que traz a Umbanda, Quibanda, Omolokô, Tambor de Mina, Xangô, Batuque, Terecô, Cabula, Catimbó. Cada uma tem variações conforme os regionalismos vão flexionando suas misturas com outras manifestações locais. Um encontro de orixás, voduns, inkices, encantados, entidades da floresta, xamãs, pajelanças que povoam nossa Cultura religiosa. Mas estamos falando dos sobreviventes. Não se pode falar do que foi exterminado e destruído violentamente pela perseguição das autoridades durante séculos. Já poderia ter acabado. Poderíamos falar no passado. Lembrando dos tempos brutais e da resistência da fé. Mas pouco mudou.

Mestre Bita de Barão, grande difusor do Tambor de Mina. Foto: reprodução redes sociais

Aqui

O Piauí tem cerca de 7 mil terreiros mapeados, conforme aponta o estudo do Movimento de Terreiro do Estado do Piauí. É um número impressionante de pontos de consagração cerimonial religiosa. Culturalmente falando, de uma riqueza incalculável. Conheço muitos. Era um adolescente quando entrei, com os pés descalços, no piso de um Congá. De dentro o olhar é diferente. A visão fica apurada e conectada com outra forma de compreender as forças que regem o mundo. Uma cosmogonia própria. Formidável.

A coordenação das Comunidades de Terreiro vem implantando imagens de Yemanjá em varias cidades piauienses. Foto: divulgação

Maranhão

Como jornalista, fiz uma série de reportagens sobre religiões de matriz africana que foram exibidas na TV Assembleia, nos primórdios da emissora, quando era dirigida pelo fundador, jornalista Tony Trindade. Numa delas, numa festa de Santo Antonio, num terreiro de Umbanda, no bairro Mateusinho, em Timon, os pontos eram entoados com o auxílio de um saxofone. A inclusão de um novo timbre musical é parte da estrutura que fortalece a essência de nossa construção religiosa, mantendo-a autêntica. Ela está aberta. Pronta para receber. Não apenas uma inovação musical. É de sua natureza. Acolher.

Estátuas dos Orixás nas Lagoas do Norte, em Teresina. Foto: reprodução redes sociais

Repressão

Apesar da quantidade numerosa de templos e pontos de culto, o Piauí é o quarto estado com mais registros de violência contra comunidades tradicionais de matriz africana. Os dados revelam um conflito contínuo. Sempre na linha do tempo do povo resiliente. Às vezes com mais hostilidade. Às vezes com menos. Mas sempre alguma invasão, um vilipêndio com os objetos de culto, destruição de espaços litúrgicos, agressão a sacerdotes ou discípulos. O tempo avança. O desrespeito muda o tom, os meios, os agressores, mas segue mostrando o lado intolerante e contraditório da sociedade. 

Intolerância religiosa com o Povo do Axé vem crescendo. Foto: Internet

Incorporação

Pode não ser assumido e viver mergulhado numa simulação de aceitação, mas é conveniência. Outras vezes é a pura hiprocrisia. Tem quem frequente templos cristãos, pule as sete ondinhas quando vai entrar no mar ou lance uma rosa com pedido à mãe das águas salgadas. Ou passa o ano completamente de branco. E depois vai dizer que não sabe de onde vem as tradições? Não vejo contradição. Nossa Cultura permite. Nossas fontes formadoras são de abonada diversidade. Nascemos e crescemos vendo toda a riqueza. Vamos incorporando e não diferenciando o que é “sacro” ou “pagão”.

Rondinele Santos, liderança do Povo do Axé. Foto: divulgação

Repúdio

A liderança do Movimento de Terreiro, Rondinele Santos, divulgou ontem Nota de Repúdio. O texto (na íntegra no final da coluna) contesta a contratação da cantora Cláudia Leitte, que está agendada para apresentar-se no próximo dia 16 de janeiro, na Avenida Antonino Freire, em trio elétrico. O evento faz parte da sequência de prévias de Carnaval realizadas pela Secretaria de Cultura, previstas para acontecer na região central de Teresina. Com a mobilização do Povo do Axé, que encaminha a mensagem pelas redes sociais, ganha ampla repercussão.

Iyalorixá Jaciara Ribeiro oficializou a denúncia contra CL. Foto: reprodução redes sociais

Denúncia

Cláudia Cristina Leite Inácio Pereira, 45 anos, nascida em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, mais de duas décadas de trajetória no gênero Axé Music. O termo reúne a Cultura negra baiana e brasileira. Ela comuta ritmos que nasceram nos terreiros sagrados, trouxeram suas histórias, citam suas divindades, os ritos celebrativos e seus objetos de culto. A cantora foi acusada pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras – IDAFRO, e por Jaciara Ribeiro dos Santos, Iyalorixá do Ilê Axé Abassá de Ogun, ao Ministério Público da Bahia.

Cláudia Leitte e representação de Yemanjá. Montagem: Internet

Acusação

O MP acolheu a denúncia que aponta a discriminação religiosa. Segundo o órgão, a cantora foi gravada cantando algumas canções com a letra alterada. Substituindo termos como Yemanjá por Yeshua (o nome de Jesus, em aramaico) na música “Caranguejo”. Em outra, modifica o verso que menciona Ogun. A investigação, uma Ação Civil Coletiva, apura a descontextualização da obra original, apagamento simbólico de referências religiosas e condutas discriminatórias.

Cláudia Leitte estreou no Axé Music em 2001, na banda Babado Novo. Foto: divulgação

Reparação

Com o agravante de reiterar no comportamento repetidamente mesmo após o início da abertura do procedimento investigatório, com imagens comprovando. Em razão do dano coletivo gerado a toda uma comunidade, com impacto nacional pela projeção e visibilidade da artista, a indenização pedida para reparar o estrago foi definida em R$ 2 milhões. É mais que compreensível o texto que repudia a contratação de CL, com dinheiro público, que está sob investigação. 

Iconoclasta

Tenho dificuldade para absorver crente evangélico agitando em festa pagã que promove o culto à carne encima de trio elétrico. O Carnaval na Bahia é uma festa toda emaranhada em sua ancestralidade. Por isso ganhou seu próprio sotaque. Tão forte que sempre teve um mercado fonográfico autônomo, que explodiu e contagiou o Brasil. O Axé Music é patrimônio do povo brasileiro, que o consome. Alterar a letra de uma canção é iconoclastia em igual proporção de quebrar uma imagem. Simbolicamente, querem o mesmo produto: o apagamento, enfraquecimento de uma Cultura.

Carnaval na Bahia é a força da ancestralidade preta em ação. Foto: reprodução redes sociais

Revisão

Como foi anunciada recentemente, a programação tem um bom tempo para encontrar solução menos impactante para todos os lados. Considerando que a gestão da Secult vai ter a sensibilidade de respeitar as queixas de uma comunidade enorme. Acho que em ano de pleito que se aproxima, seria mágoa a ecoar naquelas urnas do TRE. O recuo e reconhecimento do equívoco vai ser mais confortável que uma manifestação pública, que pode gerar imagens, comentários e um burburinho muito danoso à imagem da gestão e excelente à oposição.

Avanço

Hoje, a liderança divulgou mais um comunicado dirigido ao Governo do Piauí, mas aberto ao público. Nele, a Comunidade de Terreiro exige que seja cumprida a Lei Nº 6.291/2012, de autoria do deputado João de deus (PT), que proíbe o uso de recursos públicos e/ou incentivos fiscais que gerem algum tipo de discriminação e afrontem os direitos humanos. No texto, a exigência do cumprimento da lei de forma explícita “Não é uma opção política, mas uma obrigação legal”.

João de Deus, deputado que aprovou a lei em defesa de contratações públicas que respeitem os direitos humanos. Foto: reprodução redes sociais

Repetição

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, terra de Cláudia Leitte, o prefeito Eduardo Paes vai festejar a virada com shows gratuitos por toda a cidade. São 13 pontos diferentes de shows com artistas de diversos gêneros. Num deles, exclusivamente cantores e bandas Gospel. Mas CL não está na programação. Já que não atua no gênero. O Ministério Público Federal entrou na questão que polemiza o fim de ano carioca. O parket quer saber se houve intolerância religiosa e discriminação cultural na Cidade Maravilhosa. Terra onde as casas de Axé sempre celebram a passagem do ano com oferendas e rituais. Entoando belos cânticos. Acendendo velas. Todos vestidos de branco na beira do mar. Hábito que foi incorporado pela população e nasceu nos terreiros.

Rituais de saudação a Oxalá e Yemanjá na entrada do ano foram em parte absorvidos pela população. Foto: reprodução redes sociais

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AO GOVERNO DO ESTADO DO PIAUÍ

O Movimento dos Povos de Matriz Africana do Estado do Piauí, no exercício de sua responsabilidade histórica, social e política na defesa dos direitos humanos, da diversidade cultural, do respeito às religiões de matriz africana e do enfrentamento a todas as formas de discriminação, vem, por meio deste, solicitar e cobrar do Governo do Estado o cumprimento integral da Lei Estadual nº 6.291/2012, de autoria do deputado João de Deus.

A referida lei proíbe expressamente o uso de recursos públicos e/ou incentivos fiscais para a produção e contratação de shows culturais e artísticos que apresentem conteúdos depreciativos, constrangedores, que desvalorizem ou exponham pessoas, bem como aqueles que incentivem ou façam apologia à homofobia, à discriminação, à violência especialmente contra a mulher e outras práticas que ferem a dignidade humana.

É inadmissível que, mesmo com uma legislação clara e vigente, recursos públicos do Estado do Piauí sejam destinados a produções artísticas que reforçam preconceitos, naturalizam violências simbólicas e contribuem para a marginalização de populações historicamente oprimidas, em especial a população negra, LGBTQIAPN+ e os povos tradicionais de matriz africana.

O Estado tem o dever constitucional e legal de promover políticas culturais que valorizem a diversidade, a inclusão, o respeito e os direitos humanos, e não de financiar conteúdos que caminham na contramão desses princípios.

Reafirmamos que o cumprimento da Lei nº 6.291/2012 não é uma opção política, mas uma obrigação legal, e sua não observância representa um grave retrocesso, além de desrespeito às lutas históricas por igualdade, dignidade e justiça social.

Diante disso, exigimos transparência, responsabilidade e o imediato cumprimento da legislação, garantindo que nenhum recurso público ou incentivo fiscal seja utilizado para apoiar manifestações culturais que promovam discriminação, homofobia ou qualquer forma de violência.

Seguiremos vigilantes, mobilizados e firmes na defesa dos direitos dos povos de matriz africana e de toda a sociedade piauiense.

Pelo respeito, pela dignidade e pela efetivação das leis.

Movimento dos Povos de Matriz Africana
Estado do Piauí