Magnifica Humanitas e a inteligência natural

Ao refletir sobre a inteligência artificial, a encíclica de Leão XIV recorda que a maior tecnologia é e vai continuar sendo desenvolvida por quem sente, cria, sonha e atribui sentido ao mundo.

Há documentos que pertencem ao seu tempo e conseguem conversar com séculos inteiros. A encíclica Magnifica Humanitas, publicada por Leão XIV em 15 de maio de 2026, merece ser estudada não apenas pelos católicos, religiosos e especialistas em tecnologia. Qualquer pessoa interessada em compreender o estranho momento histórico que atravessamos, a leitura é recomendada.

O diálogo com temas que aparecem de forma recorrente na Coluna Lugar de Fala como comunicação, cultura, tecnologia, trabalho, espiritualidade, memória, arte e condição humana, estão completamente contemplados. Em outras palavras, fala de nós.

Nesta época curiosa, com tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tantas dificuldades para encontrar sentido, seguimos conectados e, paradoxalmente, expostos à solidão. Alta produção de imagens, mensagens e conteúdos e pouco ou nada se tem refletido sobre a realidade e as consequências da super exposição.

A inteligência artificial tornou-se a grande personagem do século XXI. Ela escreve textos, cria imagens, compõe músicas, organiza bancos de dados, responde perguntas e promete revolucionar praticamente todos os setores da vida humana. Os entusiastas a apresentam como uma nova fronteira da civilização. Os pessimistas enxergam nela uma ameaça. Entre os dois extremos, a maioria de nós tenta apenas acompanhar a velocidade dos acontecimentos sem ser atropelada por eles.

A grande questão do nosso tempo não é o que as máquinas serão capazes de fazer, mas o que os seres humanos continuarão sendo capazes de sentir. Parece simples, mas dela dependem democracia, educação, cultura, arte, política, espiritualidade e a própria ideia de humanidade.

 Vincenzo Gioacchino Pecci, Papa Leão XIII. Foto: reprodução

Robert Francis Prevost, Papa Leão XIV, não decidiu chamar-se Leão ao acaso. A escolha remete imediatamente a Vincenzo Gioacchino Pecci, Leão XIII, o papa que, em 1891, observou a Revolução Industrial e percebeu que o verdadeiro problema não eram as máquinas que surgiam nas fábricas. O problema era o risco das pessoas serem tratadas como extensões das máquinas.

Cento e trinta e cinco anos depois, outro Leão olha para uma nova revolução tecnológica. As engrenagens deram lugar aos algoritmos. O vapor foi substituído pelos dados. As chaminés transformaram-se em servidores. A pergunta permanece exatamente a mesma. Como proteger a dignidade humana quando a tecnologia avança mais rápido que a reflexão?

A coincidência é tão simbólica quanto eloquente. A encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, foi publicada em 15 de maio de 1891. A Magnifica Humanitas, de Leão XIV, foi publicada em 15 de maio de 2026. A mesma data. Dois séculos diferentes. Duas revoluções tecnológicas. Dois papas chamados Leão. Uma única preocupação. O ser humano.

Parece um roteiro muito bem construído. O que o torna fascinante. A encíclica não é uma crítica à tecnologia. Também não é celebração ingênua da inovação. É convite à sabedoria. Leão XIV quer recordar à humanidade que inteligência não é sinônimo de humanidade. Máquinas calculam. Pessoas compreendem. Máquinas processam informações. Pessoas atribuem significado. Máquinas identificam padrões. Pessoas reconhecem beleza. Máquinas armazenam dados. Pessoas guardam memórias. Máquinas simulam emoções. Pessoas choram de verdade. Entre as duas existe um abismo chamado experiência humana.

Uma das passagens mais surpreendentes da encíclica é a citação a Gandalf, o velho mago, personagem criado por J. R. R. Tolkien, da série O Senhor dos Anéis. Num documento destinado a refletir sobre inteligência artificial, surge um personagem da literatura fantástica para lembrar uma verdade elementar. Não nos cabe controlar todas as correntes do mundo, mas agir com dignidade no tempo que nos foi concedido. Frase simples que pode conter mais sabedoria do que muitos tratados sobre tecnologia. O problema nunca foi o poder. Sempre foi o uso que fazemos dele.

A Magnifica Humanitas tenta nos dizer que a humanidade passou milhares de anos tentando ampliar sua capacidade de comunicar, criar e compreender o mundo. E o desafio continua sendo o mesmo. O futuro não será decidido apenas pela inteligência das máquinas. Sobretudo, pela humanidade dos seres humanos.

 Robert Francis Prevost, Papa Leão XIV e sua primeira encíclica. Montagem fotográfica: reprodução

Governos discutem mercados, empresas disputam dados, plataformas disputam atenção e algoritmos disputam segundos da nossa vida. Alguém tem que levantar questões fundamentais que não cabem numa planilha, que não podem ser resumidas a indicadores de desempenho. Questões que não produzem lucro imediato. Mas que definem o rumo das civilizações.

O que é dignidade? O que é verdade? O que é consciência? O que é liberdade? O que significa ser humano num tempo em que as máquinas aprendem a imitar comportamentos humanos? Independentemente da crença de cada leitor, existe algo admirável quando uma voz pública utiliza seu espaço para recolocar as perguntas no centro da conversa.

As sociedades não entram em crise apenas quando perdem riqueza. Sociedades entram em crise quando deixam de refletir sobre si mesmas. Quando trocam sabedoria por velocidade e confundem informação com conhecimento. Quando passam a acreditar que toda inovação é necessariamente progresso. A história ensina o contrário.

Toda ferramenta amplia possibilidades. Mas nenhuma delas substitui valores. A inteligência artificial pode produzir textos mais rápidos. Criar imagens mais sofisticadas e fazer cálculos mais precisos. Seus diagnósticos são mais eficientes. Mas continuará incapaz de realizar o que sustenta a experiência humana desde os primeiros registros deixados sobre a pedra, o barro, o papel ou as telas luminosas dos nossos dias.