Nonato Oliveira celebra 76 anos de vida e 60 anos de arte

O artista visual autodidata, nascido em São Miguel do Tapuio, iniciou sua trajetória de sucesso popular desenvolvendo as próprias tintas, quando era criança.

Dia

Internacional do Tango. Que não tem muito a ver com a nossa cultura, diretamente. Mas tem sim. Tem tudo a ver. Belchior, cantor e compositor, em “A Palo Seco”, dizia: “Um tango argentino me vai bem melhor que um blues”, reforçando sua referência latina. O tango carrega parte de nossas origens, no sangue caliente. Tanto o estilo musical, quanto a dança a par e na modalidade esportiva, traduzem com elegância a identidade da parte debaixo do globo. 

Parabéns!

São 60 anos de carreira completados em 2025. Desde menino, Nonato Oliveira, que hoje celebra 76 anos, bulinava nas coisas para virar tinta. Como os ancestrais, que deixaram intrincadas mensagens nas paredes de pedra que afloram em todo o Piauí, nasceu com o dom de pintar. Retratar o imaginário. Retratar a realidade do povo, do trabalhador, da lavadeira, do vaqueiro, das profissões simples que carregam a vida nas costas, anonimamente. Em união com traços que registram os tempos modernos, trazendo elementos da natureza à paisagem urbana. 

Nonato no começo da carreira. Foto: acervo do artista

Multicor

De São Miguel do Tapuio, o rapazinho construiu um caminho de muitas cores, que o trouxeram ao posto de celebridade da arte piauiense. De verdade. Símbolo de nossa cultura. Onde o Piauí se vê, em composições simples, mas enriquecidas de pertecimento. Tesouro de nossos bens culturais, Nonato une a força que todos nós trazemos. Que identificamos numa linguagem aproximada do sentimento sertanejo, de resistência, mantendo o coração intocável. Puro, gentil e justo.

As cores e traços inconfundíveis que fazem um artista popular. Foto: reprodução redes sociais

Internacional

Nonato escalou as possibilidades. Com Picasso, consolidou a força da narrativa de seu povo, suas histórias, sua vida, suas alegrias e suas desventuras. O artista expõem em cores e formas, a piauiensidade permeada em forma densa e doce pinceladas. Encarar uma tela de Nonato é receber um potente conector de nossa raiz. Enche o coração de júbilo de fazer parte deste universo que mantém o vigor da vida em toda a sua intensidade, em contraste com a Caatinga cinza, que se finge de morta. Poucas gotas e a exuberância de matizes explodem no sertão.

76 anos ajudando a construir a identidade visual do Piauí. Foto: reprodução redes sociais

Preservação

Ganhou o mundo. Literalmente. Fez exposições nas principais galerias, nas grandes cidades do planeta. Apesar disso, de vez em quando nos deparamos com alguma obra, geralmente em grandes murais em relevo, em locais públicos, que está avariada e carece de manutenção. Muitas delas se perderam no caminho. Foram demolidas juntamente com as edificações que valorizavam esteticamente. Lembro de uma delas. Imensa. Era um paredão com as mais diversas profissões. Ficava na antiga rodoviária de Teresina. Onde é hoje o Shopping da Cidade. Saúde! Gratidão por tudo!

Mural gigante no fundo do Centro de Convenções foi restaurado. Foto: reprodução redes sociais

Gênio

Também de aniversário um gênio de nossa arte. De nossa poesia, de nossa música, de nosso samba. Um branco do asfalto que subiu o morro e eternizou-se entre os maiores compositores brasileiros. Bandolinista autodidata, adolescente aprendeu e dominou também o violão. Músico dos melhores, Noel Rosa compunha com facilidade e tocava com virtuose. Sua paixão por Ceci, que fazia job, foi sua ruína. Mesmo casado, manteve um longo relacionamento com ela. 

Nonato Oliveira e o colunista e momento de festa. Foto: reprodução redes sociais

Paixão

A separação da meretriz o levou à depressão, que aumentou o consumo de álcool e cigarros, em noites intermináveis de boemia, em Vila Isabel. O sereno da madrugada, que inspirava o artista, também trouxe a tuberculose, que foi debilitando-o aos poucos. Em sua curta vida de 26 anos intensos, Noel compôs 259 canções. Entre elas, “Dama do Cabaré”, dedicada a Juraci Correia de Araújo, o verdadeiro nome de Ceci. Música que tocou muito nas emissoras de rádio da época.

Noel Rosa é fundamental ao samba. Foto: Internet

Bye bye

Estamos no dia 11 de dezembro e como diz-se no popular: acabou o ano. E nada de Lei A. Tito Filho. O mecanismo de fomento da Prefeitura Municipal de Teresina, parado há 13 anos, continua sem nenhuma movimentação. A mudança de governo iludiu os corações dos artistas e produtores com a esperança de reabertura, mas a dura realidade confirma que vamos seguir do mesmo jeito. É um problema que precisa vir à pauta definitivamente.

Logo da lei. Quando o slogan dizia que gente tinha vez. Foto: reprodução redes sociais

Debate

Até que ela retome o seu lugar de direito, cabe a sociedade civil organizada promover o debate sobre a importância da lei que materializa nossos bens culturais. Tenho dificuldade de encontrar respostas plausíveis para justificar a inanição da Prefeitura de Teresina. Como pode abrir mão de um sistema que vai colar a imagem de realização, de responsabilidade social e cultural com o seu povo, numa administração que precisa de apoio das camadas mais numerosas?

Cresce

O movimento em defesa da permanência do Café Art Bar em seu devido lugar vai ganhando corpo e coração. A população, ao tomar conhecimento, adere imediatamente. É uma causa justa. Nobre. Dezenas de depoimentos em vídeo circulam em contas diversas, trazendo a mensagem de quem resiste ao fim do Bar da Resistência. São 50 anos completados em setembro último. É muita história sendo despejada injustamente, sem escuta da classe artística, sem ouvir o que o povo pensa.

Thor

Entre os depoimentos publicados e editados em vários vídeos, o poeta Igor de Sousa Campos, mais conhecido como Trovão Solitário, permeou a sequência de falas fazendo uma leitura lúcida e pertinente dos fatos. O vate alertou para o que está embutido no fim do Art Bar. Segundo ele, é desinteressante manter a opinião crítica que se forma e fortalece um movimento, que nasce no entorno do espaço. Entre goles de cerveja, café ou suco, o coro dos contentes é consumido na antropofagia dos artistas de The.

Poeta Igor, mais conhecido como Trovão Solitário. Foto: reprodução de vídeo das redes sociais

Sublime

Os artistas vêm se manifestando artisticamente em contrário ao fechamento do Art Bar. Tem poesia circulando. Tem cordel. Tem música sendo feita. Artistas do teatro, da dança e das artes visuais estão todos tocados pelo mote urgente, emergente, em defesa de um ícone da cultura piauiense. Não poderia ser diferente. A arte vai cumprindo o seu papel. Sublimando com toques refinados da estética da resistência, transforma a realidade em foco de peleja e manufatura a vida em sua expressão verdadeira. Como o poeta Silvan Magalhães, que publicou no blog “Recanto das Letras” e reproduzimos abaixo.

Silvan Magalhaes defende o Art Bar na poesia de Cordel. Foto: reprodução redes sociais

Art Bar no seu lugar

Lugar de muitas histórias
Onde amigos vão se encontrar
De infinitas memórias
Esse é o nosso Art Bar
Que nesse exato momento
Passa pelo sofrimento
De ver sua vida encerrar

Da praça, és o pulmão
Onde se respira Cultura
Os artistas em união
Resistem com muita bravura
Teatro, música e poesia
Compõem no seu dia a dia
Uma deliciosa mistura

Recanto da boemia
Berço de intelectuais
Onde mora a nostalgia
Dos tempos que não voltam mais
Ali reside a lembrança
Do antigo e a mudança
Para os dias atuais

Um espaço importante
No coração da cidade
Onde a arte é uma constante
A mais pura realidade
Por isso hoje venho aqui
Para entregar a ti
A minha solidariedade

A tua história, Art Bar
Não pode jamais morrer
Este aqui é o teu lugar
Aqui deves permanecer
Já que nem a pandemia
Que nos assolou um dia
Conseguiu a ti vencer

Sigamos então na luta
Por essa importante vitória
Mesmo sendo grande a labuta
Preservemos a nossa história
Lutemos o bom combate
Promovamos o debate
Resguardemos nossa memória

Deixo agora ao encerrar
O meu último recado
O futuro não existirá
Sem o presente e o passado
Por isso vamos lutar
O nosso querido Art Bar
Não merece ser fechado

Silvan Magalhães
09/12/25