Às vésperas das festas juninas, existe um fenômeno curioso no Nordeste. Basta o calendário dobrar a esquina de maio e apontar para junho que alguma coisa muda no ar. É mais que a chegada das festas juninas. É convocação afetiva. As cidades começam a vestir bandeirinhas. As escolas ensaiam quadrilhas. Os mercados se enchem de milho, macaxeira, amendoim e especiarias. Os reencontros são marcados. As lembranças despertam. Em algum lugar, uma sanfona começa a tocar.
Antes da fogueira. Antes do primeiro arraial e do casamento matuto encenado com humor e ternura, a sanfona é o anúncio sonoro de que o Nordeste entrou no período mais festivo de seu calendário. Talvez por isso o Dia Nacional do(a) Sanfoneiro(a), celebrado em 26 de maio, parece ter sido colocado estrategicamente na antevéspera de junho. É como se o país afinasse os ouvidos para ouvir novamente a voz de um de seus instrumentos mais emblemáticos.
A data homenageia Sivuca, nome artístico de Severino Dias de Oliveira. E não poderia haver patrono mais adequado. Ele pertence à raríssima categoria de artistas capazes de honrar a própria aldeia enquanto conquistam o mundo. Filho da Paraíba, da cidade de Itabaiana, transformou-se em referência internacional sem jamais abandonar o sotaque musical do Nordeste.
Sua sanfona dialogou com o jazz, com a música erudita, com a canção popular e com os mais sofisticados ambientes culturais do planeta. Continuou carregando o cheiro da terra molhada, das feiras livres e das festas de interior. Sivuca levou suas raízes consigo. Mostrou ao mundo que a universalidade não nasce da negação da identidade, mas da sua afirmação mais profunda. Sua obra permanece como uma demonstração elegante de que o regional pode ser extraordinariamente contemporâneo.
A sanfona é uma máquina. Possui molas, engrenagens, palhetas, parafusos e mecanismos complexos. Ainda assim, poucas máquinas parecem tão humanas. Ela respira. Abre e fecha como um pulmão. Suspira. Chora. Sorri. Dança. Há instrumentos que produzem sons. A sanfona produz estados de espírito. Encontrou no Nordeste sua morada definitiva. Ela combina com a região que aprendeu a transformar desafios em criatividade e saudade em celebração.
O Piauí conhece bem a história. Embora nem sempre receba o destaque merecido quando se fala da tradição sanfoneira nordestina, o estado possui uma linhagem respeitável de músicos que ajudaram a construir a paisagem sonora de nossas cidades, povoados e comunidades rurais. Entre os contemporâneos estão Ivan Silva, Inácio Botelho e Isaac do Acordeon, nomes que representam gerações da mesma herança cultural. Mas são milhares. Destaquei os que eu acompanho e todos são fora da curva. Grandes músicos.
Artistas que mantêm viva uma linguagem construída muito antes da era dos algoritmos, dos aplicativos e das plataformas digitais, carregam repertórios transmitidos pela convivência. Aprendidos em terreiros, calçadas, praças, festas religiosas, encontros familiares e longas noites de observação paciente. Cada sanfoneiro guarda não apenas músicas, mas modos de interpretar o mundo.
Existe um lugar onde a tradição ganhou contornos quase míticos. Dom Inocêncio. O município piauiense tornou-se conhecido pela extraordinária concentração de sanfoneiros. Ali, a música parece circular com a mesma naturalidade com que circulam histórias, receitas e conselhos familiares. A sanfona não é apenas instrumento. É forma de pertencimento e patrimônio vivo.
Enquanto boa parte do mundo se rende à velocidade, à instantaneidade e ao consumo acelerado, a sanfona continua exigindo tempo. Exige aprendizado e disciplina a longo prazo. Ninguém se torna sanfoneiro apenas apertando botões. É preciso conversar com o instrumento. Conhecer seu temperamento. Entender sua respiração.
A sanfona vai continuar despertando afeto. Ela preserva a dimensão artesanal da experiência humana. Em seus foles habitam namoros antigos, promessas de santos, festas de padroeiro, viagens pelo sertão, noites iluminadas por fogueiras e reencontros familiares que atravessam gerações.
Junho está às portas. As bandeirinhas começam a surgir nos postes. Os arraiais voltam a ocupar as praças. O cheiro das comidas típicas do período invade as casas e as ruas. As quadrilhas ensaiam os passos. As crianças contam os dias às festas. Os adultos reencontram memórias que julgavam adormecidas.
De repente, alguém abre uma sanfona. Quando o fole se expande, não é apenas o ar que circula. São histórias, afetos, memória circulando pelo sertão em forma de arte. Existem instrumentos que tocam músicas e instrumentos que tocam identidades. A sanfona pertence à segunda categoria.
As festas juninas fazem o Nordeste inteiro parecer respirar no mesmo compasso. Antigo e sempre novo. Que atravessa gerações e continua lembrando, nota após nota, quem somos, de onde viemos e porque ainda vale a pena celebrar juntos sob a luz quente das fogueiras e o céu generoso das noites no sertão.