Nem tudo que importa produz resultado, gera lucro ou melhora desempenho. Nem tudo tem uma finalidade específica. Nem tudo cabe perguntar para que serve. “Serve para ganhar dinheiro? Vai melhorar a produtividade? Amplia resultados? Vai me fazer crescer profissionalmente? Eu vou aparecer mais? Vamos vender mais?”
A humanidade construiu máquinas que cruzam os oceanos, exploram planetas e armazenam bibliotecas inteiras dentro de um telefone. E continua desconfiando de tudo aquilo que não apresenta utilidade imediata. As coisas mais importantes da experiência humana costumam ser profundamente inúteis.
O amor, por exemplo, não serve para nada. Não produz relatórios. Não aumenta indicadores. Não melhora gráficos. Pelo contrário. Muitas vezes atrapalha agendas, embaralha prioridades e provoca decisões que nenhum especialista em gestão recomendaria. Ainda assim, seguimos procurando amor.
A amizade também não apresenta grande eficiência operacional. Amigos fazem perder tempo. Telefonam sem motivo. Contam histórias longas. Repetem casos antigos. Sentam para conversar sobre assuntos que não mudam o destino da economia mundial. E, no entanto, poucas coisas são mais valiosas.
A arte vive enfrentando o mesmo julgamento. Uma música não mata a fome. Um poema não constrói ponte. Peça de teatro não reduz inflação e pintura não conserta estrada. Mas se uma canção tocar na hora certa, muda completamente o humor de uma pessoa. Se um livro ou texto encontrarem o leitor no momento adequado, é capaz de alterar uma existência inteira.
A utilidade da arte não está em resolver problemas práticos. Está em lembrar porque vale a pena resolvê-los. Civilizações antigas já desconfiavam disso. Os gregos criaram uma palavra admirável. Scholé. Dela nasceu o termo "escola". Curiosamente, seu significado original não é trabalho. É tempo livre. O momento dedicado à reflexão, à contemplação e ao aprendizado sem finalidade imediata.
Em outras palavras, a civilização nasceu de pessoas que pararam de correr por alguns instantes. Talvez os gregos se assustassem ao descobrir que, dois milênios depois, transformamos o descanso em culpa e a contemplação em desperdício.
Tem gente tentando ser produtiva até durante o lazer. Há aplicativos para monitorar o sono. Metas para leitura. Estratégias para caminhar. Técnicas para meditar com eficiência. Planilhas para organizar férias. Daqui a pouco alguém criará um curso ensinando como relaxar em alta performance. É só o que está faltando. E o mercado certamente encontrará compradores.
As melhores coisas da vida continuam acontecendo longe dos indicadores. Uma criança desenhando sem preocupação. Um casal observando a chuva. Rede balançando ao vento numa varanda. Conversa fiada atravessando a madrugada. Cachorro dormindo de barriga para cima sem nenhuma culpa existencial. Nenhum dos momentos será registrado na bolsa de valores. Mas todos eles enriquecem a vida.
Pessoas idosas costumam guardar memórias simples quando contam suas histórias. Nunca falam sobre planilhas, metas ou produtividade. Falam de pessoas. Das festas. Das viagens. Das experiências. Das gargalhadas. Dos encontros e desencontros. Das vitórias e experiências. Nunca de derrotas. Porque sempre aprendemos com as vivências. Falam do que parecia inútil na época e se revelou essencial com o passar dos anos. Uma sabedoria silenciosa permeia tudo isso.
Jamais vamos tornar menor o que nos é útil. O mundo precisa de engenheiros, médicos, agricultores, cientistas, jornalistas e trabalhadores de todas as áreas. Precisa de técnica, organização e competência. Mas também precisa de música, de brincadeiras, poesia, contemplação e beleza. A sociedade que valoriza apenas o que produz lucro, acaba produzindo riqueza sem produzir sentido. Vida sem sentido não faz sentido. Por mais eficiente que seja, continua sendo uma vida empobrecida.
Neste domingo, talvez valha a pena praticar uma pequena rebeldia. Sente-se sob uma árvore frondosa. Abrace-a por 1 minuto. Ouça uma canção antiga. Leia algumas páginas sem obrigação. Converse sem olhar o relógio nem abrir o celular. Faça algo que não sirva para absolutamente nada.
À primeira vista, parecerá uma perda de tempo. Mas há uma boa chance de que seja justamente o contrário. Entre todas as invenções humanas, a mais extraordinária é a capacidade de encontrar felicidade nas coisas que não precisam servir para nada. Isso é de uma utilidade imensa. E só no final, falamos em ócio. Que dará outro texto. Bom domingo!