Cheguei atrasado para a Roda de Conversa com Isis Baião, ontem, no Teresina Shopping. 20h14, pelo menos meia hora em andamento. Considerando que o mediador, Douglas Machado, que faz a curadoria, tem o hábito de aguardar um pouquinho os retardatários. Aquele descontozinho de praxe. Algumas cadeiras na frente, mas escolhi um lugar mais discreto pelo meio. Um único assento onde me encaixei. O cel vibrando e recebendo mensagem freneticamente.
Como já tinha desenvolvido outro modelo de escritura para o evento, onde faço notinhas de minhas percepções, que depois uno e tramo um texto, não poderia usar de novo. O vácuo de meia hora prejudicava. Então resolvi assim. Vou dar uma rápida revisitada na bio, obra, da deusa Isis, e depois a gente volta à crônica da reunião dialogada, que foi muito massa.
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Isis Baião aprendeu cedo que a vida também pode ser escrita em cena. Antes dos palcos, dos livros, das personagens atravessadas por ironia, inteligência e vertigem humana, havia uma menina dividida entre Minas Gerais e o Piauí, carregando dentro de si a geografia de montanhas e outra de sol aberto. Mais tarde apareceria, discretamente, em sua maneira de olhar o mundo.
A primeira experiência em Teresina não foi apenas lugar em sua história. É matéria sensível. Das cidades que entram no corpo da gente sem pedir licença. Isis cresceu observando pessoas, ouvindo silêncios, colecionando vozes e temperamentos. Será que sua dramaturgia tem o hábito delicado de perceber o humano por dentro?
Ainda jovem, enquanto muita gente sonhava distraidamente com o futuro, ela já procurava o teatro como quem busca uma espécie de revelação íntima. Encomendava revistas e livros sobre artes cênicas pelo correio, devorava textos, acompanhava temporadas teatrais durante visitas ao Rio de Janeiro. Havia fome de cena. Fome de palavra. A gula por sabor de mistério que acontece quando alguém transforma emoção em linguagem.
O jornalismo veio como caminho natural para uma mulher fascinada pelas narrativas humanas. Na PUC do Rio de Janeiro, profissionalizou o olhar. Aprendeu técnica, escuta, investigação, síntese. Mas nunca perdeu a sensibilidade que antecede qualquer profissão. Trabalhou em rádio, televisão, revistas, atravessando os bastidores culturais enquanto alimentava, silenciosamente, a dramaturga que amadurecia dentro dela.
O jornalismo lhe ensinou a observar pessoas sem pressa. Uma das maiores virtudes da dramaturgia. Entender contradições é escutar o que é dito e, principalmente, o que ninguém consegue dizer. Quando encontrou o teatro de maneira definitiva, Isis não entrou na cena pela porta da vaidade. Foi pela urgência e necessidade quase física de escrever. Eu te entendo. Como se a dramaturgia não fosse apenas escolha estética, mas sobrevivência emocional. E foi.
Suas peças nunca pareceram interessadas em personagens perfeitos. Isis prefere os humanos rachados. Os excessivos. Os irônicos. As mulheres feridas e fortes ao mesmo tempo. As figuras que riem enquanto sangram por dentro. Sua escrita carrega humor, crítica social, inteligência cortante e uma ternura subterrânea que aparece justamente quando o público menos espera.
Sua dramaturgia fala eloquentemente com o feminino. Não no sentido óbvio ou decorativo, mas na capacidade rara de enxergar as complexidades invisíveis da alma. Baião escreve personagens como quem desmonta relógios antigos revelando engrenagens, ferrugens, delicadezas e explosões internas. Ao longo da vida, construiu uma obra inquieta. Nunca domesticada. Nunca acomodada. Um teatro que prefere a pergunta à resposta pronta. Que provoca antes de confortar. Que ri da hipocrisia social sem perder a compaixão pela fragilidade humana.
Depois de muitos anos no Rio de Janeiro, retornou a Teresina trazendo na bagagem décadas de experiência, memória e arte. Voltou diferente. Como voltam as pessoas que passaram muito tempo ouvindo o barulho do mundo. Reencontrou no Piauí com suas sertanejas raízes afetivas. E promoveu novos encontros, novos artistas e novas possibilidades de semear dramaturgia.
Alguns escritores produzem obras. Outros produzem atmosfera. Isis Baião parece pertencer ao segundo grupo. Sua presença deixa rastros de inteligência, humor e delicadeza crítica. Mulher poderosa que transforma palavra em casa, palco e resistência.
O mais bonito em sua trajetória é a compreensão de que escrever nunca foi apenas profissão. Foi maneira de permanecer viva. Porque algumas pessoas respiram normalmente. Outras respiram arte. Baião, ao que tudo indica, pertence profundamente à segunda categoria.
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Gostei demais do que vi ontem, 13. A Roda de Conversa nasceu modesta nas primeiras reuniões. Era notável que carregava afeto intelectual. Algo raro. Encontros em que as pessoas não chegam apenas para ouvir, mas para trocar humanidade. Com o tempo, o projeto foi crescendo. Ganhando corpo, presença, maturidade e alcance. Novas vozes começaram a surgir ao redor da roda. Artistas, escritores, jornalistas, estudantes, curiosos, apaixonados pela palavra e pela arte passaram a ocupar o espaço como quem encontra abrigo num tempo apressado demais para a escuta.
Enquanto evoluía, não perdeu sua essência. O formato avançou. Está mais dinâmico. Mais interativo, com possibilidades de participação, linguagens e caminhos. Permaneceu com o compromisso delicado com a circulação de ideias, sensibilidade e pensamento intactos. É o que realmente importa.
A ação cultural amadureceu sem endurecer. Cresceu aumentando a ternura. Tornou-se mais amplo sem abandonar a intimidade simbólica que transforma conversa em encontro verdadeiro.
O formato vitorioso, assinado pela TrincaFilmes, está mais vivo, mais horizontal, promove o público, que não ocupa apenas o lugar de espectador. Interfere, provoca, complementa, emociona, acrescenta repertório e memória. Isso modifica profundamente a experiência coletiva. Cada edição passou a funcionar menos como palestra e mais como construção compartilhada de pensamento.
O conhecimento deixou de caminhar numa única direção. Ele circula. Respira entre as pessoas. Vai e volta como corrente afetiva. Existe algo muito contemporâneo nisso. No mundo onde quase todos falam ao mesmo tempo e poucos realmente escutam, a Roda de Conversa escolheu o caminho contrário ao desacelerar e permitir presença.
E se continua crescendo deve ser porque suas ações culturais verdadeiras não se sustentam apenas pela agenda ou pela formalidade institucional. Elas permanecem porque conseguem criar pertencimento. Quando fazem as pessoas sentirem que são parte da obra invisível que está em construção. A Roda de Conversa chegou neste patamar. Mais do que reunir pessoas, ele vem reunindo sensibilidades.
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E teve o after, que fervilhou. Com livro à venda, autografou, foi paparicada, tirou fotos, fez vídeos e brilhou com a naturalidade de toda grande estrela. Fiquei por ali esperando a minha vez. Pacientemente. Todos queriam trocar ideias com ela. Quem não quer?
Gabi, sua companheira, estava atenta. Facilitando e organizando silenciosamente o momento. Ela também participou colocando sua voz poderosa em linda canção de amor. A vibe elevada, atraiu admiradores e fãs. Também ex-alunas, que foram introduzidas na escrita dramatúrgica pela mestra.
Fiquei por último. Quando sentei ao seu lado, entreguei o livro e falei meu nome para facilitar o autógrafo. Ela olhou para mim e disse: “Claro que eu sei quem é você". Aí engatamos o papo. Revelou que lê a COLUNA LUGAR DE FALA. Pronto. Ganhei o dia. No aniversário, o melhor presente é ganhar atenção de uma escritora admirada. Não é vaidade intelectual por si. É receber a chancela de quem a gente bate palmas.
Em poucos minutos, conversamos horrores. Mais brincando com as palavras, com as frases. Quando levantei, o cineasta entrou em cena. Meu amigo, com o cenho semicerrado, lembrou-me que aconteceram fatos muito relevantes no começo do encontro. Seu jeitinho terno de mostrar que não ficou feliz com meu atraso. Ele nem sabia o esforço que eu fiz para estar lá em noite de celebração particular.
Douglas, que está cada vez mais com aquela atmosfera de personagem jorgeamadiano, faltou só o chapéu panamá para complementar. Atuou no final, entregando o protagonismo do grand finale às mulheres. Ele foi à plateia e elas sentaram-se nas cadeiras da frente, juntando-se a Isis e Gabi, Gardênia (que co-produz a atividade) e as meninas que construíram a exposição, que abriu em 8 de maio, segue até 19 de junho. Isabela do Kariri e sua companheira, Tauana Queiroz, completam o time bem-sucedido da edição, Vi e gostei das fotos, livros, prêmios e outros objetos da Musa das Letras. Uma noite de literatura de alto nível em versão oralizada foi um grande presente que me dei.