Piauí vai se consolidando como a terra do "quase"

No Piauí, a política criou uma palavra que, com o tempo, virou uma estratégia, um método de governo: quase.

No Piauí, a política criou uma palavra que, com o tempo, virou uma estratégia, um método de governo: quase.

 Porto de Luís Correia - Foto: ASCOM 

Quase tivemos Guaribas como cidade modelo do Fome Zero.

Quase tivemos o hidrogênio verde transformando o litoral em um polo energético.

Quase vimos o Porto de Luís Correia se tornar a grande porta de escoamento da economia piauiense para o mundo.

Quase universalizamos as escolas de tempo integral.

No discurso oficial, tudo parece sempre a um passo de acontecer, mas na vida real da população, aos olhos do povo, esse passo raramente é dado.

O estado convive há décadas com a síndrome do projeto anunciado. A ideia nasce em solenidades, com o palácio sempre lotado, ganha manchetes, apresentações em PowerPoint e promessas de transformação histórica.

Depois entra em uma zona nebulosa onde tudo permanece “em negociação”, “em fase final”, esperando o termo de fomento ou “em estruturação”.

Essa lógica não começou agora. Ela atravessou governos e gerações políticas.

Durante os mandatos de Wellington Dias surgiram grandes expectativas com projetos como refinaria, ferrovia e polos industriais. Muitos ficaram pelo caminho ou avançaram menos do que se prometia.

Sob o governo de Rafael Fonteles, o discurso ganhou uma estética moderna: economia digital, inteligência artificial na educação, hidrogênio verde e integração logística internacional.

Grandes projetos surgem da ambição dos gestores em fazer história — e a ambição é legítima. O problema surge quando ela se transforma em retórica reiterada.

O Porto de Luís Correia é o exemplo clássico. Há décadas ele aparece como divisor de águas da economia piauiense. Já teve anúncios de conclusão, ampliação e retomada, mas continua sendo mais promessa de futuro do que realidade do presente.

No litoral, o hidrogênio verde começa a seguir trilha semelhante. Memorandos e cartas de intenção alimentam a narrativa de protagonismo energético, mas a produção concreta ainda é incipiente.

Agora, indiscutivelmente, o turismo é o retrato mais claro do Piauí do “quase”.

O estado abriga um patrimônio arqueológico extraordinário: o Parque Nacional da Serra da Capivara, um tesouro capaz de atrair visitantes do mundo inteiro. Mesmo assim, os voos para a região vivem um ciclo instável: hora existem, hora desaparecem.

O mesmo acontece com os planos de consolidar voos para o litoral, em Luís Correia.

O resultado é um paradoxo evidente: o Piauí possui riquezas naturais e culturais únicas, mas ainda enfrenta dificuldades básicas de conectividade aérea para recebê-las.

Na educação, a expansão das escolas de tempo integral é um avanço importante, mas apresentá-la como universalizada quando ainda há desigualdades no interior revela como, muitas vezes, o marketing político corre mais rápido que a realidade.

O problema do Piauí nunca foi sonhar grande.

O problema é transformar cada promessa em um anúncio histórico antes que ela vire realidade.

Assim, o estado parece viver permanentemente à beira de uma decolagem que nunca se completa.

E o povo piauiense já demonstra sinais claros de cansaço.

Quer porto funcionando, não maquete.

Quer indústria operando, não protocolo de intenções.

Quer avião pousando regularmente na Serra da Capivara e no litoral.

Porque o “quase” pode até render bons discursos, porém não constrói desenvolvimento — e muito menos coloca o gestor, positivamente, nos livros de história.