Brasil: o país da esperança ou do imaginário político?

Pessoas continuarão vendendo a ilusão de que a troca de uma sigla partidária fará a corrupção sistêmica desaparecer como num passe de mágica.

É fascinante observar o brasileiro trabalhador — aquele que ganha um salário mínimo para sobreviver, que vive uma realidade de fome e miséria — testemunhar toda essa corrupção sistêmica. E quando falo em corrupção sistêmica, refiro-me à podridão do sistema em si. O sistema sempre foi podre.

 Imagem para ilustrar o artigo.  

Faço essa introdução para chegar a um ponto: o Brasil sempre foi e sempre será o país da esperança. Tenho 48 anos e quase 20 atuando na área criminal, e sempre ouvi essa frase. Mas por que o Brasil sempre será o país da esperança? Porque, quando se trata de corrupção sistêmica, não adianta mudar o partido político. Não adianta trocar a situação pela oposição que vende uma falsa moralidade administrativa. A corrupção no Brasil é sistêmica — não está enraizada nas pessoas, mas no próprio sistema de administração pública.

Vemos pré-candidatos prometendo combater a corrupção, usar métodos inspirados em Bukele (El Salvador) para acabar com a criminalidade, ou qualificar organizações criminosas como terroristas — tudo com suposto apoio da direita alinhada aos EUA. Isso não passa de narrativa, de estratégia eleitoral para angariar votos de quem se baseia em opinião alheia.

 Ricardo Pinheiro   

Hoje, ouvindo o podcast de Joel Jota (JJ Podcast), uma entrevista chamou minha atenção. O convidado disse que não dá opiniões próprias, justificando que opinião não é fato e, portanto, não serve para nada. Isso me fez conectar essa reflexão com as propostas dos pré-candidatos à presidência: de um lado, a direita e o centrão focados na indignação com ministros do STF; de outro, a esquerda vendendo o combate à corrupção. Nas últimas eleições, a narrativa foi exatamente essa.

Pessoas de direita prometiam resolver os problemas do país — como na era Bolsonaro, com a liberação do porte de armas, que supostamente evitaria uma guerra civil e permitiria que as pessoas se defendessem. O resultado foi uma tragédia: colecionadores (CACs) usaram essa prerrogativa para praticar infrações criminais. Foi um período violentíssimo.

Nesta coluna, tenho liberdade para dar minha opinião — e ela não precisa ser seguida por ninguém. Não quero ser dono da razão, apenas expor meu ponto de vista. E minha opinião, neste momento de turbulência, é esta: pessoas que criticam a maior apuração de crime financeiro do país têm contato direto com seus investigados. Pessoas vendem o imaginário de que, tirando o PT e colocando o PL, o Brasil se transformará — como num passe de mágica — nos Estados Unidos, com segurança, infraestrutura e o fim da pobreza. Isso é um absurdo. É uma narrativa descolada da realidade, criada para sustentar um discurso que todos sabem improvável num país extremamente corrupto e burocratizado.

Aqui, parlamentares precisam “vender a alma” para conseguir uma emenda PIX e construir um hospital ou comprar uma ambulância para sua cidade. Até as emendas obrigatórias — que o Executivo não poderia discricionariamente reter — são usadas como poder de barganha para aprovar projetos de interesse do governo. Isso é corrupção sistêmica, que vai da liberação de emendas PIX à nomeação de aliados em cargos de alto escalão, passando pela corrupção mais básica do sistema.

Não se trata apenas de pessoas corruptas, mas de organizações governamentais inteiras estruturadas em torno da corrupção. Para alterar uma consciência entranhada no próprio poder político e na democracia brasileira, não basta trocar o partido no comando.

Não quero citar nomes, mas é público: um pré-candidato à presidência teve contato com Daniel Vorcaro (responsável pela maior investigação de crime financeiro do país) um dia após sua prisão, para cobrar valores relacionados a um filme sobre um líder da direita. Isso é moralmente indefensável. Em qualquer país sério, essa informação levaria à imediata renúncia da candidatura. Mas não aqui.

O Brasil sempre foi e sempre será o país da esperança — porque a corrupção é sistêmica, e esperança vende. Enquanto pessoas com muito dinheiro, donas de partidos políticos, lucram com esse discurso, os brasileiros que ganham um salário mínimo (ou menos, ou nada) continuam sem ter o que comer ou onde morar.

É louvável que o Brasil seja um país da esperança. Mas, na minha opinião — e reitero: é apenas minha opinião — o Brasil sempre será, na verdade, o país do imaginário. Onde pessoas continuarão vendendo a ilusão de que a troca de uma sigla partidária fará a corrupção sistêmica desaparecer como num passe de mágica — resolvendo segurança pública, desigualdade e falta de dinheiro.

Não vai.