Compliance Zero: o marco inédito e o risco conhecido

Mas, se a história é um guia, não será nenhuma surpresa se suas provas forem anuladas e seu legado, esvaziado.

O que diferencia a Operação Compliance Zero de outras grandes investigações da Polícia Federal no Brasil é, ao menos até o momento, sua capacidade de alcançar a alta cúpula do Poder Judiciário e do Poder Legislativo. Este é um feito raro e significativo no cenário nacional.

 Imagem para ilustrar o artigo.  

É preciso compreender que investigações dessa magnitude, quando envolvem crime organizado altamente especializado — como a corrupção de colarinho branco —, não podem ser analisadas fora do contexto político e jurídico. O crime organizado não se desenvolve sem o poder político para a elaboração de leis favoráveis e sem o poder jurídico para a blindagem de seus integrantes. Quando a criminalidade está enraizada no sistema financeiro nacional, essa dependência se torna ainda mais explícita.

O histórico recente do Brasil ilustra bem esse padrão. A Operação Lava Jato, por exemplo, avançou de forma robusta até o momento em que suas investigações atingiram o núcleo político da organização criminosa. A partir daí, o processo foi anulado por interpretações jurídicas que envolveram justamente a alta cúpula do Poder Judiciário. Não é um caso isolado: sempre que investigações dessa envergadura alcançam o alto escalão dos poderes político e judiciário, terminam esvaziadas ou declaradas nulas.

 Ricardo Pinheiro   

Diante desse contexto, ainda que a Operação Compliance Zero represente um novo marco investigativo por atingir simultaneamente as cúpulas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, não seria surpreendente se todas as provas obtidas — incluindo eventuais delações premiadas de presos — fossem declaradas ilícitas pelo Supremo Tribunal Federal. O precedente já existe e se consolidou em operações anteriores.

Há ainda outro agravante. A Polícia Federal é vinculada ao Poder Executivo, tendo o Presidente da República como autoridade máxima da instituição. Isso cria um mecanismo sutil, porém eficaz, de contenção: quando um grupo de investigadores, com toda a boa vontade e competência técnica, consegue avançar sobre a alta cúpula do Executivo e do Judiciário, o próprio comando da PF pode utilizar seu poder discricionário para aplicar punições disfarçadas. Sob justificativas administrativas aparentemente legítimas, delegados e agentes são afastados das operações e realocados em outras funções. A mensagem é clara: “Você está investigando demais. Agradecemos, mas não pode passar daqui.”

É lamentável, mas revelador. Se compararmos com o FBI, a polícia de cúpula dos Estados Unidos, quando há corrupção sistêmica dessa natureza, o compromisso é com uma investigação técnica e independente que apure toda a cadeia de comando da organização criminosa. No Brasil, esse mesmo compromisso parece encontrar um teto intransponível quando as investigações batem à porta do poder.

A Operação Compliance Zero é, sem dúvida, um marco de coragem investigativa. Mas, se a história é um guia, não será nenhuma surpresa se suas provas forem anuladas e seu legado, esvaziado. Infelizmente, é assim que funcionam as investigações de alta cúpula no Brasil.