A Operação Carbono Oculto 86, deflagrada pela Polícia Civil do Piauí nesta terça-feira (04), revelou a existência de uma engrenagem de lavagem de dinheiro que cruza estados e níveis, do varejo de combustíveis no Nordeste até o comando financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo. Conforme indícios levantados, a estrutura pode ter movimentado valores aproximados de R$ 52 bilhões.
O Piauí, com foco em Teresina, tornou-se peça-chave nesse tabuleiro. As investigações indicam que o capital ilícito da facção chegava ao sistema formal por meio de empresários locais, fintechs e redes de postos de combustíveis.
Saiba quem são
Beto Louco (Roberto Augusto Leme da Silva) Operador financeiro do PCC, foragido; coordenador nacional da lavagem via distribuidoras e fintechs.
Primo / João (Mohamad Hussein Mourad) Ampliador da rede nacional; ligado à distribuidora Aster e a movimentações bilionárias.
Haran Santhiago Girão Sampaio
Sócio da rede HD (postos); alvo de busca, apreensão e bloqueio de bens; vínculo em movimentações financeiras suspeitas.
Danilo Coelho de Souza
Sócio-fundador da HD Petróleo; figura operacional na rede de postos alvo da ação.
Victor Linhares
Ex-vereador de Teresina e ex-secretário municipal da atual administração; recebeu transferência de R$ 230 mil vinculada à rede de postos e aparece entre os alvos das diligências.
O núcleo paulista: quem são Beto Louco e Primo
Roberto Augusto Leme da Silva, mais conhecido como Beto Louco, aparece como figura central na engrenagem financeira do PCC. Investigadores apontam que ele atuava no controle de toda a cadeia que ia das usinas às bombas de combustíveis. Empresas de fachada, importações irregulares e pagamento por fintechs foram parte do modus operandi.
Mohamad Hussein Mourad, apelidado Primo ou João, aparece como o operador responsável pela expansão do modelo para além de São Paulo. Ele é associado à Aster Distribuidora, empresa que sozinha movimentou R$ 2,22 bilhões em registros suspeitos de uma única fintech. O padrão revela que o setor de combustíveis foi transformado em via de grande escala para evasão fiscal e lavagem.
O elo no Piauí: HD Petróleo, Haran e Danilo
A investigação identificou a rede de postos HD, com forte atuação em Teresina, como o principal canal local da operação. Mandados de busca e apreensão foram expedidos, e a interdição de 49 postos nos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins materializa a amplitude da rede de atuação.
Haran Sampaio é apontado como sócio majoritário da HD. Ele aparece em movimentações atípicas por meio de fintechs, além de possuir bens de elevado valor que foram alvo de bloqueios.
Danilo Coelho, atua como sócio-fundador e gestor operacional do grupo. A investigação indica que os dois integravam uma estrutura que permitia a mistura entre receitas lícitas dos postos e fluxos provenientes de canais suspeitos.
Victor Linhares: o político e a transferência de R$ 230 mil
O ex-vereador e agora ex-secretário municipal de Teresina Victor Linhares, que ocupou cargos públicos e teve função de secretário municipal, aparece nas apurações da Operação Carbono Oculto 86 em razão de uma transferência de R$ 230 mil feita em dezembro de 2023 por Haran Sampaio. Essa transação foi registrada em conta aberta por Linhares em uma fintech que aparece em quebras de sigilo vinculadas ao esquema. A polícia incluiu seu nome entre as diligências da operação.
Ainda não há julgamento nem condenação. A simples existência da transação, o contexto societário e o momento em que ela ocorreu levantam a hipótese de intermediação financeira ligada à venda de bens ou transferência de recursos. A investigação está em curso.
Como o esquema funcionava
- Empresas de fachada importavam ou adquiriam insumos do setor de combustíveis — nafta, etanol, hidrocarbonetos.
- Distribuidoras interpostas recebiam produto e valores; parte das transações circulava por fintechs que dificultavam rastreamento.
- Postos varejistas, como os da rede HD, vendiam ao consumidor final incorporando volumes que disfarçavam entradas ilícitas.
- A ocultação patrimonial se dava via compras de bens (avião, veículos, imóveis) e estruturas societárias com laranjas.
Por que isso importa para o Piauí
- Perda de arrecadação: fraudes fiscais e lavagem de dinheiro reduzem os recursos que deveriam reforçar os serviços públicos.
- Concorrência desigual: postos que misturam recursos ilícitos podem atuar com custos ocultos e pressionar concorrentes legais.
- Risco reputacional: Teresina e o Piauí passam a figurar em investigações de escala nacional, o que pode afetar investimentos e imagem institucional.
- Segurança pública: o fortalecimento financeiro de organizações criminosas amplia sua capacidade de atuação e alcance social.
O que já foi apreendido e o andamento
A ação resultou em buscas, apreensões, interdição de unidades de postos e bloqueio de bens, entre eles, um avião modelo Cessna e veículos de luxo ligados a Haran Sampaio.
A investigação avança com quebras de sigilo, perícias contábeis e cooperação entre agências federais e estaduais.
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Operação Carbono Oculto: Polícia interdita 49 postos suspeitos de lavar dinheiro para o PCC no Piauí