Rede HD vendida 6 dias após empresa ser criada: entenda a teia do PCC que fechou postos e mira empresários

Nova fase da Operação Carbono Oculto no Nordeste expõe como a facção lavou R$ 52 bilhões, usando a venda de postos da Rede HD, fundos e fintechs.

A Operação Carbono Oculto, ação contra a lavagem de dinheiro do crime organizado no Brasil, revelou sua face mais recente e preocupante no Nordeste. Na última terça-feira (4), a deflagração da fase batizada como Carbono Oculto 86 resultou na interdição de 49 postos de combustíveis no Piauí, Maranhão e Tocantins, expondo o braço local de uma rede que movimentou R$ 52 bilhões em recursos ilícitos para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A investigação da Polícia Civil do Piauí (PC-PI), Gaeco e Draco desvendou a cronologia alarmante da infiltração: o principal motor da suspeita é a venda da Rede HD, que possuía dezenas de postos na região, ocorrida em dezembro de 2023. A compradora, Pima Energia e Participações (CNPJ 53.294.384/0001-69), foi criada em São Paulo apenas seis dias antes da operação de compra. Essa inconsistência societária é vista como uma manobra clássica de lavagem, onde uma empresa de propósito específico é estabelecida rapidamente para dar aparência legal à injeção de capital criminoso.

A Estrutura Bilionária da Facção

O esquema desvendado em São Paulo, e agora no Piauí mostra a sofisticação do PCC. Liderado por figuras como Mohamad Hussein Mourad (“Primo”) e Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”), a facção usa importadoras de fachada, fundos de investimento sofisticados, sediados inclusive na Faria Lima, e fintechs para movimentar e ocultar o dinheiro do tráfico e de outras atividades ilícitas, evitando o rastreamento.

Empresas como a REAG Investimentos e a fintech BK Bank já foram citadas nas investigações originais por serem utilizadas como "bancos paralelos" para transações bilionárias e aquisição de ativos, como usinas sucroalcooleiras e veículos de luxo.

O Epicentro Piauiense: Empresários e Política

No Piauí, a investigação mira diretamente a rede de empresários que se tornou o elo regional da lavagem.

O empresário Haran Santhiago Girão Sampaio, antigo proprietário da Rede HD, é um dos alvos centrais da operação. Sampaio já é investigado por inconsistências patrimoniais e alterações societárias suspeitas. Além de ser citado em uma Ação Civil Pública no Maranhão por improbidade administrativa em licitações, as apurações contra Sampaio no Piauí resultaram na apreensão de carros de luxo e uma aeronave.

A teia criminosa se estende ao círculo político. A polícia cumpriu mandado de busca e apreensão contra Victor Linhares de Paiva, empresário e ex-vereador de Teresina e secretário municipal na capital.

Documentos do Coaf revelaram uma transferência de R$ 230 mil de Haran Sampaio para uma conta de Linhares de Paiva no BK Bank, a mesma fintech associada à lavagem do PCC. A conta de Linhares havia sido aberta apenas oito dias antes do depósito, sugerindo que a abertura pode ter sido feita unicamente para essa transação suspeita.

Fraude Fiscal e Lesão ao Consumidor

Além da lavagem de capitais, a investigação no Piauí aponta:

• Fraude Fiscal: Indícios de emissão de notas fiscais frias e outros artifícios para sonegar R$ 8,6 bilhões em impostos, distorcendo o mercado de combustíveis.

• Remessas de R$ 700 mil: Foi identificada a remessa de mais de R$ 700 mil de um dos suspeitos locais para uma empresa já citada na Operação Carbono Oculto por ligação com o PCC, consolidando a conexão financeira.

• Fraude no Produto: A mobilização do Instituto de Metrologia do Piauí (IMEPI) nos postos interditados busca confirmar não apenas a fraude fiscal e a lavagem, mas também a suspeita de adulteração de combustíveis e fraudes volumétricas nas bombas, lesando diretamente o consumidor piauiense.

A Pima Energia, com sua fundação estratégica e rápida aquisição da Rede HD, é agora o símbolo da ousadia do crime organizado que, em poucos dias, tentou absorver o setor de combustíveis do Nordeste para consolidar seu império de dinheiro sujo.

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