Vereadora, irmã de prefeito interino de Pio IX, pede cassação de prefeito afastado

A manobra política revela traição e oportunismo familiar, apoiado por forças políticas estaduais.

A crise política em Pio IX cidade que fica no sul do Estado do Piauí  ganhou um novo capítulo, e talvez o mais delicado até aqui.

A vereadora Eliane Arrais Bezerra de Alencar Maia, do MDB, protocolou, no dia 27 de abril, um pedido formal de cassação do mandato do prefeito Silas Noronha Mota, preso e afastado desde 10 de abril por suspeita de participação em um esquema de exploração sexual de adolescentes entre 13 e 14 anos.

Prefeito Silas Noronha Mota e vereadora Eliane Arrais Bezerra de Alencar Maia - Foto: Reprodução

O que o documento não explicita, mas muda completamente o peso político da ação, é o seguinte: Eliane é irmã do atual prefeito interino, Etinho Bezerra, o vice que assumiu o comando da cidade após a prisão de Silas.

A formalidade jurídica existe. Mas o contexto político levanta perguntas.

A Coluna Ponto de Ruptura teve acesso exclusivo ao documento de oito páginas, recebido pela Câmara Municipal no dia 27 de abril.

O DOCUMENTO

O pedido de cassação se apoia no Decreto-Lei nº 201 de 1967, que trata da responsabilidade de prefeitos em todo o país.

Trecho do pedido de cassação

A vereadora sustenta que a conduta atribuída a Silas Noronha configura infração político-administrativa, passível de cassação independentemente da conclusão do processo criminal. O texto invoca o artigo 4º, inciso X, que prevê perda de mandato para quem proceder de modo incompatível com a dignidade e o decoro do cargo.

A peça cita as denúncias feitas por Liedson Alves, a prisão do sobrinho do prefeito, Samuel Lopes Noronha, e o afastamento cautelar determinado pela Justiça.

Também solicita a abertura de Comissão Processante, com direito à defesa, produção de provas e julgamento em plenário.

Do ponto de vista técnico, o pedido encontra respaldo.

Mas política não é só técnica.

A IRMÃ E O IRMÃO

Etinho Bezerra, foi eleito vice-prefeito e reeleito em 2024 na mesma chapa de Silas Noronha.

Prefeito Silas Noronha Mota e vice Etinho Bezerra - Foto: Reprodução

Com a prisão do titular, assumiu a prefeitura no dia 11 de abril.

Menos de três semanas depois, sua própria irmã protocola o pedido de cassação definitiva do prefeito afastado.

Eliane, por sua vez, também é do MDB, o mesmo partido do irmão.

E há pouco mais de um ano, em dezembro de 2024, estava ao lado de Silas na cerimônia de diplomação. Aliados políticos, registro público, sorrisos e celebração.

Agora, a mesma aliada assina o documento que pode encerrar a carreira política do ex-companheiro de chapa.

O intervalo entre os dois momentos é curto.

O movimento, calculado.

O TEMPO COMO FATOR

As denúncias vieram a público em 22 de março. A CPI foi instalada em 31 de março. As prisões ocorreram em 9 e 10 de abril.

Em seu pertil no Instagram, a descrição já foi atualizada: "Prefeito de Pio IX, Piauí" - Foto: Reprodução

Etinho assumiu em 11 de abril.

O pedido de cassação só foi protocolado agora no início desta semana, em 27 de abril.

Cinco semanas após o escândalo. Dezessete dias depois que o novo prefeito já estava no cargo.

Tempo suficiente para que o cenário político se reorganizasse. Ou para que decisões fossem amadurecidas.

Depende de quem observa.

O NOME NOS ÁUDIOS

Um elemento adiciona ainda mais tensão ao caso.

Segundo reportagem do Portal R10, áudios obtidos na investigação indicam que Silas Noronha teria orientado Liedson Alves a procurar Eliane para construir uma nova versão dos fatos.

A proposta envolveria promessa de emprego na Secretaria de Assistência Social, ajuda financeira e, em troca, silêncio.

A Eliane mencionada é identificada, no contexto político local, como a vereadora Eliane Arrais Bezerra.

Se confirmado, o quadro ganha contornos ainda mais complexos.

A mesma pessoa que hoje pede a cassação teria sido citada como possível ponte para conter o escândalo.

O CASO

Silas Noronha foi reeleito prefeito de Pio IX em 2024 com 63,99% dos votos.

Em março de 2026, denúncias vieram à tona apontando um suposto esquema de exploração sexual envolvendo adolescentes, com intermediação de um aliado político.

Em 10 de abril, Silas se apresentou à polícia, ficou em silêncio e teve celulares apreendidos.

A Justiça determinou prisão temporária de 30 dias e afastamento do cargo por 90 dias.

As investigações seguem sob segredo de Justiça. A CPI está em andamento na Câmara.

E, até o momento, não há condenação definitiva.

Silas nega todas as acusações e afirma ser vítima de perseguição política.

Confira o documento completo!

Denúncia - Câmara Pio IX.pdf

O QUE ESTÁ EM JOGO

No papel, trata-se de um processo de responsabilização política.

Na prática, o caso escancara algo mais sensível.

Um prefeito ainda não julgado. Uma denúncia grave, mas em apuração. Uma mudança de poder rápida.

E um pedido de cassação vindo de dentro da própria base.

Com um detalhe impossível de ignorar. O beneficiário direto da cassação é o atual ocupante da cadeira, irmão da autora do pedido.

O cenário permite várias leituras.

Entre elas, uma pergunta inevitável…

Estamos diante de um movimento legítimo de moralização pública ou de um caso clássico de oportunismo político em meio a uma crise? 

A resposta, como quase sempre na política, não está no documento.

Está no olhar de quem lê.

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