Ao Ponto

Doutor em Planejamento Regional - Universidade de Grenoble/França; Professor aposentado UFPI.
Ao Ponto

Um inventor brasileiro na China

Fácil não é, mas a história desse e de outros inventores brasileiros prova que é possível.

17 de abril de 2026 às 12:28 ▪ Atualizado há 1 mês


Recentemente falei com um primo que vive na China. Ele me contava de um amigo brasileiro que abriu empresas lá. Trata-se de Charles Virgílio, um Paulista de São José dos Campos, com uma história tão inusitada quanto inspiradora.

 Um inventor brasileiro na China - Foto: ReproduçãoUm inventor brasileiro na China - Foto: Reprodução   

Charles começou a trabalhar muito cedo; o pai engenheiro decidiu largar a segurança do emprego corporativo e montou uma fábrica de joias. Ainda aos sete anos de idade, Charles começou a conhecer e de alguma forma participar – nos anos 1980, isso ainda era relativamente comum – dos trabalhos na fábrica. Charles tem boas lembranças: diz que aprendeu muito e que, na ainda tenra idade de 14 anos, sentiu a necessidade de alçar voos mais altos.

Não que desgostasse do trabalho de ourives, mas sentiu ímpeto de se envolver com outros projetos. Associou-se então à Spider Tecnologia, fábrica de painéis de LED. Foi aí que se tornou evidente o seu jogo de cintura para a área comercial. Os painéis eram personalizados para as necessidades de cada cliente, e isso foi “uma revolução na época”. Apaixonou-se por inovação, ciência e tecnologia, e empreendeu em dezenas de áreas relacionadas: lavanderia, caldeiraria, serralheria. Só não fez bruxaria...por enquanto!

Em certo momento de sua juventude, após dois anos de parceria com a EMBRATEL, com algum cascalho no bolso, resolveu tirar um ano de férias na Amazônia. Ficou trabalhando como voluntário na zona rural da Amazônia profunda. Lá conheceu a etnopsicologia e a ayahuasca. Durante um ritual, teve uma ‘miração’, e observou que todas as casas tinham telhados espelhados, cobertos por telhas fotovoltaicas. Assim surgiu a ideia das telhas solares. Charles se apaixonou pela ideia. 

Após cinco anos desenvolvendo o produto, ele passou um tempo em Brasília, onde foi apresentado a um representante da Universidade Qinghua. Foi convidado para morar e trabalhar no Império do Centro, na cosmopolita Pequim, sob o guarda-chuva acadêmico da melhor universidade do país. Sem hesitação, Charles pegou o avião e foi.

O produto – a telha solar fotovoltaica – foi patenteado no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) em meados dos anos 2000, provando, segundo Charles, que não existia nada semelhante no mundo naquele momento. Por ser material de construção, é um produto que tem que ser fabricado para durar gerações, além de ter um preço acessível, produzido em massa, e que seja efetivo como gerador de energia. Na China ele procurou equilibrar as três variáveis da equação: escala de produção, custo e qualidade.

Depois de registrada a patente na China, passaram a trabalhar no aperfeiçoamento do produto. Em parceria com a universidade, montaram uma pequena fábrica perto de Pequim. Não demorou para aparecerem divergências: enquanto Charles queria fazer um produto popular, o parceiro chinês sonhava em desenvolver um produto para a elite. Entraram em conflito, e Charles desfez a parceria.

Pegou um trem para Shanghai, em busca de alguma empresa que conseguisse produzir a telha do jeito que ele precisava. Ainda no trem, achou na Internet uma empresa localizada na pacata e próspera cidade de Taian, no interior da província Shandong. Coincidência ou não, o alto-falante do trem anunciou em seguida (em mandarim e inglês) “próxima estação, Taian”. Charles tomou como um aviso, e desceu do trem lá mesmo, bem longe do destino planejado.

Chegou na fábrica às dez da manhã; às 11:45 o contrato de sociedade já estava assinado. O Mr. Ma, dono dessa e de outras fábricas na região, contagiou-se com o entusiasmo e audácia do inventor brasileiro. Essa história Charles contou para o meu primo algumas vezes, e os detalhes sempre batem! 

Construíram e equiparam uma fábrica, iniciaram a produção, corrigiram alguns problemas técnicos, e quando as vendas estavam começando a bombar...veio a pandemia. Charles estava fora da China, e ficou sem poder voltar por quatro anos. Enquanto isso, o estrito lockdown resultou em fechamento da fábrica.

Não se dando por vencido, ele montou uma fábrica no interior de São Paulo, onde aperfeiçoou o produto e ganhou algum dinheiro. Quando finalmente a China reabriu as portas, ele voltou para lá; encontrou a fábrica em mal estado, com parte do equipamento faltando, e teve que praticamente recomeçar.

Hoje está com a fábrica na China muito bem instalada, com o produto amadurecido, e como ele mesmo diz – há males que vem para bem. Para crescer e alcançar projeção mais significativa, Charles abriu uma outra empresa em Hong Kong, a ESR Holding, dedicada à construção de condomínios-usina fotovoltaicos. Investimento em imóvel é visto como algo tradicional e seguro, facilitando a captação de capital. 

A ESR Holding compra galpões pré-fabricados na China e instala no Brasil com a telhas solares. O produto é dois-em-um: condomínio de galpões e usina fotovoltaica. Estão atualmente construindo um na Rodovia Ayrton Senna, próximo de São Paulo, com 30 galpões, que funciona como uma megausina solar. 

Finalmente a coisa começou a andar: Investidores apareceram. Charles diz que resolveu um problema ambiental, evitando que grandes áreas de terra ficassem totalmente dedicadas a painéis solares tradicionais, excluindo-se outros usos. 

Para quem está pensando em seguir um caminho semelhante, de inovação, empreendedorismo e risco, Charles encoraja a fazê-lo, buscando apoio das instituições públicas e privadas que hoje apoiam inventores e seus projetos. Desejamos a todos eles sucesso, e que suas invenções venham de fato a beneficiar o nosso mundo combalido. 

Fácil não é, mas a história desse e de outros inventores brasileiros prova que é possível.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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