Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A palavra como herança

No Dia Nacional dos Profissionais da Educação, uma celebração do magistério e de todos os trabalhadores que fazem o conhecimento chegar, permanecer e produzir novos caminhos.

Por Willian Tito

06 de agosto de 2026 às 18:34 ▪ Atualizado há 1 hora


Há quem se lembre da primeira professora pelo nome da escola, pela fotografia da turma ou pelo cheiro do caderno novo. Eu me lembro dela dentro de casa. Quem ensina abre caminhos.

Minha primeira professora foi minha mãe, Talita. Foi ela quem me alfabetizou. Apresentou-me às letras e me mostrou que aqueles pequenos sinais desenhados no papel podiam formar palavras, ideias, perguntas, histórias e mundos inteiros.

Talvez ela não soubesse, naquele momento, o alcance do que fazia. Ao me alfabetizar, não apenas me ensinava a decifrar palavras. Entregava-me uma chave que abriria portas por toda a vida. Foi pela leitura que encontrei a escrita. Foi pela palavra que cheguei ao jornalismo, ao teatro, à literatura, ao rádio, à televisão, ao portal. Não necessariamente nessa ordem. De alguma maneira, tudo começou pelas mãos da professora Talita.

Neste 6 de agosto, Dia Nacional dos Profissionais da Educação, minha homenagem também se volta para minha esposa, doutora Ana Lívia, que ama ser professora, também. E amar o magistério, em tempos tão desafiadores, é uma forma de resistência.

Quem ama ensinar não transmite somente informações. Observa, escuta, provoca, acolhe e acredita. Muitas vezes, o professor enxerga no estudante uma capacidade que ele próprio ainda não conseguiu perceber.

Ana Lívia conhece a alegria de preparar uma aula, compartilhar conhecimentos, acompanhar descobertas e perceber que uma ideia encontrou espaço dentro de outra pessoa. Ensinar é também deixar um pouco de si na trajetória de alguém.

Mas educação não se faz apenas dentro da sala de aula, nem depende somente do professor diante da turma. Ela é construída por um ciclo inteiro de gestores, coordenadores, pedagogos, psicólogos, técnicos, intérpretes, auxiliares, bibliotecários, secretários, merendeiras, porteiros, zeladores, motoristas e tantos outros trabalhadores que ajudam a escola e a universidade a permanecerem vivas.

Cada profissional participa, de alguma maneira, da formação humana. A escola vem antes da aula e continua depois que o sinal toca. Está no alimento preparado, no ambiente limpo, no livro organizado, no estudante acolhido, na família orientada e no conhecimento que circula.

Educação de verdade não aprisiona o pensamento. Liberta. Não ensina apenas a obedecer, mas também a perguntar. Não forma somente trabalhadores, mas cidadãos. Não prepara apenas para provas, concursos ou profissões. Prepara à vida, convivência, escolhas e à consciência.

O ensino verdadeiramente libertador não entrega respostas prontas para todas as coisas. Ele ensina a procurar, comparar, duvidar, investigar e construir respostas próprias. Também impulsiona. Desde a criança para além das limitações impostas pela pobreza à mulher em direção a autonomia. Impulsiona comunidades, transforma famílias e amplia horizontes. Cada pessoa que aprende carrega consigo a possibilidade de mudar não apenas a própria história, mas também a história de quem está ao redor.

Por isso, defender a educação é muito mais que defender prédios, calendários ou conteúdos. É defender a inteligência, liberdade, dignidade e o futuro.

Hoje, abraço simbolicamente minha mãe, professora Talita, que me ensinou as primeiras letras. Abraço minha esposa, doutora Ana Lívia, que ama ensinar e faz da docência uma escolha de vida. E abraço todos os profissionais que fazem girar o extraordinário ciclo do conhecimento.

Toda vez que alguém ensina com responsabilidade, sensibilidade e compromisso, alguma janela se abre. Quando a educação abre uma janela, outras podem também abrir-se à luz.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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