Por Isadora Santos
23 de abril de 2026 às 09:57 ▪ Atualizado há 1 mês
No dia 23 de abril, quando se celebra São Jorge, fé e futebol se cruzam na trajetória do Sport Club Corinthians Paulista, que há quase um século tem o “Santo Guerreiro” como padroeiro. A ligação entre o santo e o “Time do Povo” surgiu no início do século XX e se sustenta em duas vertentes: a influência inglesa na origem do clube e a transferência da sede para o Parque São Jorge, marco que consolidou essa associação simbólica.
Torcida do Corinthians aplaude passagem de São Jorge pelo gramado da Neo Química Arena antes do início dos jogos do Timão — Foto: José Manoel Idalgo/ Agência Corinthians A devoção alvinegra remonta à fundação do clube, inspirada no Corinthian-Casuals Football Club. Durante visita ao Brasil, em 1910, a equipe europeia influenciou não apenas o nome do time paulista, mas também a tradição de ter São Jorge como padroeiro. A segunda vertente é territorial e foi decisiva para consolidar essa identidade.
Segundo a Igreja Católica, Jorge nasceu na Capadócia, região que hoje integra o território da Turquia, no século III. Capitão do exército romano, ele se voltou contra o imperador Diocleciano após a ordem de perseguição aos cristãos.
Preso e submetido a torturas, manteve a fé até a morte, tornando-se símbolo de resistência. A imagem do santo como um cavaleiro que derrota um dragão representa, de forma alegórica, sua vitória sobre a opressão.
A relação com o Corinthians se fortaleceu na década de 1920, quando o clube discutia a permanência no estádio da Ponte Grande ou a busca por uma sede própria em São Paulo.
Fundado no Bom Retiro, o clube passou por locais como o Campo do Lenheiro e o Estádio da Ponte Grande, às margens do rio Tietê. A virada ocorreu em 1928, com a inauguração do Parque São Jorge.
A área, adquirida dois anos antes, era conhecida como Fazenda São Jorge. O nome foi dado pelos antigos proprietários, que associavam a paisagem do rio Tietê à Baía de São Jorge, em Beirute. Um dos fundadores do clube, o português António Pereira, defendeu a compra do terreno e recorreu à devoção ao santo para convencer os demais dirigentes.
Antes das partidas em Itaquera, o “Ritual de São Jorge” reforça a tradição do clube. Ao som de “Filhos de Jorge” e com as luzes da Neo Química Arena piscando, um homem entra em campo vestindo uma capa preta e carregando a imagem de São Jorge.
O responsável é Fernando Wanner, historiador oficial do clube e autointitulado “Guardião de São Jorge”, que iniciou a prática em 2017 com o objetivo de reforçar a identidade simbólica do Corinthians. Segundo ele, o ritual busca evocar a tradição e abençoar o ambiente, sem relação com superstição.
Para o historiador, a presença do padroeiro representa pertencimento e memória. A figura de Jorge, que enfrentou o martírio sem renunciar à fé sob o governo de Diocleciano, dialoga com a trajetória do clube, marcada por resistência e superação.
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