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Um passado tão presente: mazelas sociais submetem trabalhadores à escravidão

Somente ano passado, quase 30 piauienses foram resgatados de ambientes laborais semelhantes às vergonhosas senzalas do período colonial

Por Emanuel Pereira

22 de janeiro de 2026 às 15:06 ▪ Atualizado há 2 meses


Vinte e oito pessoas foram resgatadas de situações análogas ao trabalho escravo no território piauiense em 2025. Mais que trabalhadores sujeitos a condições desumanas, são vítimas de uma estrutura definida para explorar a mão-de-obra de grupos oprimidos, como negros, nordestinos, analfabetos ou pessoas de baixa escolaridade.

 Piauienses em situação análoga à escravidão (Foto: MPT-PI)Piauienses em situação análoga à escravidão (Foto: MPT-PI)   


O que ocorre em carvoarias clandestinas, lavouras de cana-de-açúcar e tantos outras áreas marcadas pelo desrespeito aos direitos humanos é o reflexo de quase quatro séculos de escravidão durante o colonialismo. O povo negro, cruelmente sequestrado da África para o Brasil, foi liberto das correntes de ferro em 1888, com a assinatura da Lei Áurea, mas ainda estão presos às amarras da desigualdade.

O trabalho análogo à escravidão foi normalizado. Piauienses em situação de vulnerabilidade trocam a própria dignidade por um colchão mofado no chão de terra, água imprópria ao consumo e migalhas para alimentação. No final do mês, alguns trocados que mal sustentam as famílias e o silêncio de quem foi amordaçado pelas próprias mazelas sociais.

Há mais de duas décadas, o Ministério Público do Trabalho (MPT) age sob o escopo de retirar essas mordaças e escancarar que a escravidão existe.

Edno Moura, procurador do trabalho, retirou muitos piauienses de situações análogas à escravidão ao longo de quase 20 anos. O resgate dos 28 trabalhadores ano passado aconteceu em duas regiões do estado.

"Vinte e três desses trabalhadores foram resgatados no cerrado piauiense, na atividade de catação de raízes, em uma fazenda da cidade de Currais. Os demais estavam em uma pedreira na cidade de Caldeirão Grande, na divisa do Piauí com o Ceará", disse.

O MPT realiza ações de fiscalização e combate ao trabalho escravo em parceria com as forças de segurança pública, no entanto, as situações não cessam, especialmente pela dificuldade em acessar os locais onde os crimes acontecem.

"A quantidade de resgates a cada ano é bastante irregular. O trabalho escravo não está reduzindo, pois não há como estar presente em cada lugar onde possivelmente isso ocorre. Ano passado, enfrentamos a dificuldade de identificar e localizar os empregadores e isso influencia no número de resgates", destacou.

Mas não basta resgatar. É necessário romper um ciclo de violações aos direitos sociais herdado do período colonial por meio de políticas públicas que promovam assistência social e inserção destes trabalhadores no mercado de trabalho.

Para o procurador do trabalho, sem estas ações afirmativas, o Piauí permanecerá às amarras das mazelas socioeconômicas.

"O Estado precisa atribuir a estes trabalhadores a dignidade perdida enquanto eles permaneciam em situação semelhante à escravidão", pontuou.
 O jornalista Emanuel Pereira entrevistou o procurador do trabalho Edno Moura - Foto: TV Lupa1O jornalista Emanuel Pereira entrevistou o procurador do trabalho Edno Moura - Foto: TV Lupa1  

Como denunciar

Todos os cidadãos podem denunciar casos de trabalho análogo à escravidão. Basta acessar o link www.prt22.mpt.mp.br/servicos/denuncias ou entrar em contato no Whatsapp 86 995447488. As denúncias podem ser feitas de forma anônima.




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