Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A arte de recuperar o chão

No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, a cidade de Gilbués mostra que a ciência, a Caatinga e a persistência humana podem transformar cicatrizes em esperança.

Por Willian Tito

17 de junho de 2026 às 13:13 ▪ Atualizado há 56 minutos


Hoje, 17 de junho, é o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. Não é exatamente um tema capaz de incendiar as redes sociais. A humanidade costuma se interessar mais pelo que cresce do que pelo que desaparece.

Prestamos atenção às florestas quando florescem, aos rios quando transbordam e às cidades quando se expandem. O solo, quase sempre, passa despercebido. Está ali, silencioso, sustentando tudo. Talvez por isso receba tão pouca atenção. É uma injustiça. A história da civilização pode ser contada como a história da relação entre as pessoas e a terra. Quando o pacto se rompe, começam os problemas.

No Brasil, poucas paisagens contam essa história de forma tão eloquente quanto Gilbués, no sul do Piauí. Durante décadas, o município ganhou fama nacional pelas imensas voçorocas que rasgam a paisagem. Vistas de longe, parecem feridas abertas. Vistas de perto, impressionam ainda mais. A terra revela suas camadas como se estivesse expondo uma antiga memória geológica.

Muitos chamaram de deserto. A ciência fez a correção necessária. Gilbués não é deserto. É área marcada por intensos processos de degradação e erosão do solo. A diferença técnica importa. Mas, para quem observa a paisagem, a sensação continua carente de cuidados.

Se antes Gilbués aparecia nas reportagens como símbolo do problema, aos poucos passou a ser referência na busca por soluções. Pesquisadores, universidades, agricultores, técnicos e instituições públicas transformaram a região em um grande laboratório a céu aberto.

Enquanto boa parte do mundo debate os efeitos das mudanças climáticas em conferências internacionais, homens e mulheres trabalham diretamente sobre a terra, tentando devolver vida ao que parece perdido.

A boa notícia é que as respostas começam a surgir. Projetos de recuperação ambiental, revegetação, contenção de erosões, recuperação de nascentes e novas tecnologias para retenção de água mostram que a degradação não é necessariamente uma sentença definitiva.

A natureza possui uma admirável capacidade de recomeçar quando encontra parceria. A palavra mais importante. Parte da humanidade acreditou que a natureza existia para ser dominada. O século XXI descobriu que ela precisa ser compreendida.

Uma coincidência histórica. Neste ano, entrou em vigor a Lei nº 15.430, que institui a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga. Não se trata apenas de mais uma legislação ambiental. É uma mudança de olhar.

Durante séculos, a Caatinga foi apresentada como sinônimo de limitação. Terra seca. Espaço difícil. Lugar onde a vida insistia em desafiar as probabilidades. A ciência começou a enxergar outra narrativa. A Caatinga não é o problema. É a resposta.

Com temperaturas cada vez mais elevadas, escassez hídrica crescente e eventos climáticos extremos, o bioma exclusivamente brasileiro guarda lições preciosas sobre adaptação, resiliência e sobrevivência. Cada mandacaru é uma aula prática de gestão de recursos. O umbuzeiro parece ter desenvolvido uma tecnologia própria para enfrentar a escassez. As plantas guardam uma estratégia que a humanidade talvez não esteja tentando compreender.

Enquanto bilhões são investidos na busca por vida em outros planetas, seguimos descobrindo formas de preservar a vida neste.

Os telescópios não vão encontrar respostas nas estrelas. Gilbués lembra que algumas delas continuam enterradas sob nossos pés. Combater a desertificação é mais que preservar paisagens. É proteger a agricultura e garantir água. É preservar biodiversidade e fortalecer comunidades. É defender economias locais e cuidar das gerações futuras. Em última análise, é um compromisso com a própria permanência humana.

O Piauí conhece o desafio de perto. Conhece também a força de quem aprende a conviver com as adversidades sem perder a capacidade de sonhar. Gilbués continua ensinando. A nova Lei da Caatinga aponta um caminho. A terra, paciente como sempre foi, segue oferecendo suas lições. Ela nunca pediu muito. Apenas respeito. E um pouco de cuidado.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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