Por Willian Tito
20 de junho de 2026 às 11:31 ▪ Atualizado há 2 horas
Somos a última geração que aprendeu a cair. Não metaforicamente. Cair mesmo. Do muro. Da bicicleta, da goiabeira, do pé de manga, do carrinho de rolimã. Isso explica algumas coisas.
Cada brincadeira carrega uma filosofia. A amarelinha ensina que a vida avança aos pulos. A bola de gude mostra que precisão vale mais que força. O pião revela que equilíbrio é movimento. O esconde-esconde ensina o prazer de desaparecer e a alegria ainda maior de ser encontrado. A pipa ensinava liberdade, mas também responsabilidade. Basta afrouxar demais a linha para perder o voo.
O futebol de rua ensinava democracia. O dono da bola não era necessariamente o melhor jogador. Mas era sempre ouvido. A queimada ensinava estratégia. O pega-pega ensinava velocidade e o elástico ensinava coordenação, ritmo, parceria e persistência, sobretudo às meninas. Sem nenhuma fobia. Só justiça à hegemonia, que não mudou de mãos enquanto persistiu.
Nenhum adulto chamava todo esse movimento de desenvolvimento cognitivo. Era só uma tarde comum. Hoje, sabemos que não era. A rua era um imenso laboratório de humanidade a céu aberto.
Podemos abrir a narrativa sobre a última geração que brincou na rua. No tempo em que as crianças desapareciam e não era motivo para pânico. Era apenas um dia qualquer de terça-feira. Ou qualquer outro. Depois do almoço, um menino assobiava. Uma bicicleta passava. Alguém respondia com campainha. Um grupo de meninas surgia correndo. Em poucos minutos, a rua inteira parecia ter produzido uma infância coletiva. As mães sabiam mais ou menos onde estávamos. Nós sabíamos menos ainda. Isso era parte da aventura.
A cidade não era cenário. Era brinquedo. A calçada virava autódromo. O meio-fio transformava-se em trave. O terreno baldio era floresta, deserto, campo de batalha, planeta distante ou qualquer coisa que a imaginação decidisse naquela tarde. Uma pedra podia ser tesouro. Uma caixa de papelão podia ser nave espacial. Um galho torto podia derrotar dragões. A pobreza de objetos produzia uma riqueza de imaginação que hoje impressiona. O passado não era melhor. Nem pior. A criatividade costuma nascer da falta. Escassez é professora extraordinária.
Brincadeiras não eram apenas passatempos. Eram cursos intensivos de convivência. Na bola de gude aprendíamos concentração. Na amarelinha, equilíbrio. Com o pião, persistência. A pipa, paciência. Esconde-esconde, confiança.
Futebol de rua, negociação. Todo jogo começava muito antes do apito imaginário. Era preciso decidir as regras. Resolver conflitos. Escolher os times. Administrar injustiças. Lidar com o dono da bola. Conviver com o craque. Aceitar o perna-de-pau. Era um MBA completo em relações humanas sem PowerPoint nem certificado. Era apenas infância em modo profissional.
Muitas personalidades foram forjadas naquele ambiente. Líderes aprenderam a organizar times. Criativos a inventar mundos. Resilientes a perder. Comunicadores aprenderam a convencer e mediadores a apartar brigas. Sonhadores a enxergar castelos onde existiam apenas terrenos vazios.
A rua formava pessoas. Nem sempre boas. Mas quase sempre preparadas à convivência. A rua nos ensinava a pertencer. Esse é o grande tesouro de toda uma geração. Hoje pertencemos a grupos. Naquele tempo pertencíamos a lugares. A esquina. A praça. A quadra. A mangueira. O campinho. A ponte. O rio. O bairro. O endereço fazia parte da identidade.
Claro que não devemos romantizar. A infância tinha perigos, joelhos ralados, tombos, medos e limitações. Mas também tinha uma liberdade que ajudava a construir autonomia. A criança descobria o mundo sem tutorial. Aprendia fazendo. Errando. Tentando novamente. Como quase tudo o que realmente importa na vida.
As crianças de hoje continuam inteligentes, criativas, surpreendentes e extraordinárias. O problema não está nelas. Talvez esteja em nós. Nas cidades que construímos. Em espaços públicos que abandonamos. Nos quintais que desapareceram e muros que cresceram. No medo que ocupou o lugar da confiança.
Onde foram parar as brincadeiras? Elas estão por aí. Escondidas em alguma memória. Guardadas numa bola de gude esquecida numa gaveta. Num pião sem corda. Numa bicicleta pequena demais para o adulto que nos tornamos. Talvez estejam apenas esperando que alguém as encontre. Como no velho esconde-esconde. E, ao encontrá-las, a gente pode descobrir que a criança não foi embora. Estava escondida. Esperando ser achada antes que escureça.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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