12 de março de 2026 às 11:26 ▪ Atualizado há 2 meses
A luta das mulheres brasileiras nasceu assim.
Nasceu nos quintais silenciosos do Nordeste, onde muitas apanharam caladas. Nasceu nas cozinhas abafadas, nos quartos mofados, onde a palavra da mulher sempre valeu menos que a do marido. Nasceu nos corredores das delegacias onde tantas ouviram que “briga de marido e mulher não se mete a colher”. Uma frase que parece inofensivo. mas cegamente proteje a violência. Um dia essa violência ficou tão escancarada que virou lei, a Lei Maria da Penha — e virou também consciência coletiva, amém.
Quando “as conquistas perdem o rumo”
Nada disso veio fácil.
As mulheres deste país abriram caminho com as próprias mãos. Lutaram por voto, por trabalho, por respeito, por proteção. Criaram espaços de fala porque durante séculos lhes negaram até o direito de serem ouvidas. A política brasileira, sempre tão masculina, precisou aprender — ainda que a contragosto — que existiam experiências que só quem viveu podia narrar.
Foi daí que nasceu a ideia do lugar de fala.
Não como um privilégio.
Mas como reparação histórica. E por favor, parem de usar isso errado.
Por isso mesmo, quando o país vê a deputada Erika Hilton assumir protagonismo em uma comissão dedicada às mulheres, o debate que surge não é pequeno, nem deve ser tratado com leviandade. A questão não é negar trajetórias, nem apagar lutas. O Brasil já errou demais quando tentou silenciar pessoas.
Mas também é preciso perguntar, com serenidade e coragem: A quem pertence esse espaço? Desculpa deputada, só não é seu.
A comissão das mulheres nasceu para discutir a realidade feminina concreta — aquela que começa na infância interrompida, passa pela gravidez precoce, pelo abandono paterno, pela dupla jornada, pela violência doméstica, pela desigualdade salarial. São problemas que têm raízes profundas na condição histórica de ser mulher neste país.
Não se trata de excluir.
Quando “as conquistas perdem o rumo”
Trata-se de preservar o sentido de uma luta.
Quando tudo passa a caber em todos os discursos, o risco é que nenhuma experiência específica seja realmente escutada. E as mulheres brasileiras — sobretudo as mais pobres, as do interior, as que vivem longe dos holofotes — já foram silenciadas tempo demais para voltarem a ser figurantes dentro do próprio debate.
O feminismo brasileiro nasceu para abrir portas.
Mas portas abertas não significam salas sem propósito.
Talvez este seja um momento de maturidade para o país. Não para atacar pessoas, nem para alimentar trincheiras ideológicas, mas para refletir sobre algo mais profundo: como preservar o espaço das mulheres sem transformar a própria luta em um território confuso, onde tudo se mistura e nada se resolve.
Porque quando uma causa perde seus contornos, perde também sua força.
E as mulheres do Brasil — as que criam filhos sozinhas, as que enfrentam violência, as que lutaram, e lutam diariamente por respeito, como Da. Carmelita, minha amada mãe, não tenham o dissabor de ver sua própria história dissolvida em um discurso que já não sabe mais exatamente por quem fala.
Talvez seja hora de parar um instante.
Olhar para trás.
Lembrar das tantas mulheres que viveram e morreram para ter esse " lugar de fala" e perguntar, com honestidade:
Estamos de fato trabalhando pelas mulheres ou silenciando-as de vez?
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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