22 de dezembro de 2025 às 22:19 ▪ Atualizado há 2 meses
O Brasil acordou tentando entender como um simples par de chinelos se transformou no centro de uma guerra bilionária. Em apenas dois dias, a Alpargatas viu seu valor de mercado derreter em R$ 206 milhões na Bolsa de Valores. O motivo é uma peça publicitária de fim de ano que, ao tentar ser moderna, acabou atingindo em cheio a sensibilidade política de metade do país. Para entender esse prejuízo, é preciso olhar para além do vídeo e focar em quem desenhou essa estratégia.
Chinelo ou política? Entenda por que a Havaianas está sendo boicotada no Brasil - Foto: Reprodução Por mais de 30 anos, a Havaianas foi sinônimo de leveza e humor nas mãos da agência AlmapBBDO. No entanto, em uma busca por "rejuvenescimento" e uma pegada mais sofisticada, a marca entregou sua conta para a GALERIA.ag. Comandada pelo publicitário Rafael Urenha, a agência é conhecida por trabalhos ousados para grandes marcas, mas desta vez o tiro saiu pela culatra.
A agência escalou a atriz Fernanda Torres para um roteiro que brinca com a superstição de ano novo. Ao sugerir que o consumidor não comece 2026 com o "pé direito", a Galeria.ag ignorou que, no Brasil de hoje, essa expressão não é apenas sobre sorte. A frase foi lida como uma mensagem subliminar de apoio à esquerda, o que disparou um alerta vermelho em grupos de direita e gerou um movimento de boicote que a empresa não conseguiu conter.
O investidor que opera na Bolsa de Valores não olha para a ideologia, mas para o lucro. Quando o boicote começou a ganhar força e nomes como Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira passaram a atacar a marca, o mercado financeiro reagiu imediatamente. O entendimento é simples: se a marca que "todo mundo usa" resolve excluir metade dos seus clientes por causa de um trocadilho, ela deixa de ser uma gigante absoluta.
Enquanto a Havaianas e a Galeria.ag mantêm um silêncio absoluto sobre a crise, a concorrência já se movimenta. A Ipanema, da Grendene, registrou um aumento súbito de buscas e seguidores. O consumidor que se sentiu ofendido pela propaganda está migrando para a concorrência, mostrando que o bolso do brasileiro é o termômetro final de qualquer campanha publicitária.
PONTO DE RUPTURA
O erro da Havaianas e da agência Galeria.ag foi achar que o Brasil é um grande escritório de publicidade na Faria Lima. Eles tentaram ser inteligentes demais e acabaram sendo burros comercialmente. Ao atacar a ideia de "começar com o pé direito", eles não atingiram apenas uma superstição, mas cutucaram a identidade de milhões de pessoas que já vivem com os nervos à flor da pele por causa da política.
O ponto de ruptura está na desconexão total entre quem cria e quem consome. A Galeria.ag entregou um comercial para ser aplaudido em Cannes, mas esqueceu que quem paga a conta é o brasileiro que usa chinelo no dia a dia e não quer receber sermão ideológico. A Alpargatas pagou R$ 206 milhões para aprender que, no mercado de massa, a neutralidade é an alma do negócio.
Ao tentar ser "cult", a Havaianas deixou de ser universal. O prejuízo milionário é o certificado de que a propaganda moderna perdeu o contato com as ruas. Quem tenta dar um chute na política usando um chinelo de borracha acaba saindo descalço e com a conta no vermelho. A Havaianas sempre foi de todos, mas a Galeria.ag conseguiu a proeza de deixá-la sozinha em um dos lados da calçada.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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