Por Thiago Trindade
11 de janeiro de 2026 às 23:33 ▪ Atualizado há 2 meses
O mercado de saúde suplementar brasileiro vive seus dias mais sombrios, imprensado entre a ineficiência financeira e a desumanização do atendimento. Dois casos emblemáticos ilustram o colapso do setor: de um lado, a Hapvida, maior operadora verticalizada do país, vê seu império financeiro derreter na Bolsa de Valores; do outro, em escala regional, a Unimed Teresina adota práticas de "guerra" contra beneficiários, ignorando o Judiciário para conter custos às custas de crianças com autismo.
Unimed Teresina e Hapvida: Crise por todos os lados A Hapvida, que já foi celebrada como a "Amazon da Saúde" e chegou a valer R$ 110 bilhões, enfrenta uma erosão sem precedentes. Com uma desvalorização superior a 90%, hoje avaliada em cerca de R$ 6 bilhões, a empresa viu a saída de 60 mil clientes em apenas um trimestre.
Jorge Pinheiro sai de cena para dar lugar a Luccas Adib, o atual diretor financeiro (CFO). A mensagem ao mercado é clara: a prioridade é o caixa, não necessariamente o leito. No entanto, essa "financeirização" da gestão cobra um preço alto. No Amazonas, a empresa já é alvo de ações civis públicas por negar atendimento a crianças com deficiência, um prenúncio do que se espalha pelo resto do país.
Se a Hapvida peca pela lógica fria de Wall Street, a Unimed Teresina, uma cooperativa médica, deveria, em tese, operar sob a lógica do cuidado. Mas a realidade em Teresina mostra que a cooperativa embarcou na mesma estratégia de contenção de despesas a qualquer custo, atropelando a ética e a lei.
Enquanto a Hapvida tenta se salvar trocando executivos, a Unimed Teresina tenta "salvar o caixa" descumprindo liminares.
Denúncias formalizadas pela OAB-PI apontam que a cooperativa tem ignorado ordens judiciais sistematicamente, interrompendo terapias vitais para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O paralelo entre as duas operadoras é assustador. Ambas parecem ter identificado no paciente de alta complexidade (como os autistas) um "custo a ser combatido".
No caso da Unimed Teresina, a tática inclui:
Calote técnico: Atrasos recorrentes nos pagamentos às clínicas credenciadas.
Barreiras burocráticas: Exigência de documentos desnecessários para travar liberações.
Desobediência frontal: Recusa em cumprir decisões que determinam a continuidade de tratamentos métodos específicos (ABA, Denver), forçando a judicialização em massa.
O cenário projeta um 2026 caótico para o beneficiário piauiense. A crise da Hapvida prova que o modelo de "lucro acima de tudo" tem pernas curtas e pode destruir uma marca hegemônica em meses. Já a Unimed Teresina, ao brincar com o risco de prisão por desobediência e com a regressão clínica de crianças, coloca em xeque sua história de credibilidade.
O mercado financeiro puniu a Hapvida tirando seu valor. A sociedade e a justiça do Piauí começam a cobrar a fatura da Unimed. No fim, a lição que fica para os gestores de ambas as pontas é a mesma: quem trata saúde como mercadoria barata, acaba pagando caro, seja em reais, em reputação ou em vidas.
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