Ponto de Ruptura

Coluna assinada por Thiago Trindade, jornalista e publicitário há 14 anos. Provoca reflexões críticas sobre sociedade, política e negócios no Piauí e Brasil.
Ponto de Ruptura

Corrida de Bell Marques revela o "cemitério verde" do Rio Poti sob descaso da Águas de Teresina

Alteração de última hora no percurso da Corrida 100% Você leva 14 mil atletas para as margens do Rio Poti, expondo tapete de aguapés e forte odor em frente à Estação de Tratamento da zona Leste.

21 de dezembro de 2025 às 14:49 ▪ Atualizado há 2 meses

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  • Evento "Corrida 100% Você" com Bell Marques revela problemas ambientais em Teresina, com cerca de 14 mil participantes.
  • Trajeto alterado devido à intervenção da Strans, deslocando a corrida para uma área degradada do Rio Poti.
  • Participantes relataram forte odor ao passar pela Estação de Tratamento de Esgoto Leste, evidenciando poluição e proliferação de aguapés.
  • Presença de aguapés indica poluição por esgoto doméstico mal tratado.
  • Problemas no Rio Poti impactam o Rio Parnaíba, afetando o ecossistema estadual.
  • A situação levanta preocupações sobre a eficiência do Grupo Aegea em gestão hídrica na região.
  • Alteração do percurso trouxe à tona a degradação ambiental, antes escondida.

O que deveria ser uma manhã de celebração da saúde e do axé com o cantor Bell Marques, neste domingo (21), acabou se tornando uma denúncia a céu aberto do abandono ambiental em Teresina.

Corrida de Bell Marques revela o "cemitério verde" do Rio Poti sob descaso da Águas de Teresina - Foto: Divulgação

A Corrida 100% Você, que reuniu cerca de 14 mil participantes, teve seu trajeto alterado drasticamente após intervenção da Strans, que proibiu a realização da prova na Avenida Raul Lopes.

Corrida de Bell Marques revela o "cemitério verde" do Rio Poti sob descaso da Águas de Teresina - Foto: Divulgação

Com a mudança "a toque de caixa", a largada foi transferida para a Avenida Prof. Arimatéia Santos (antiga Ulisses Marques), na zona Leste. A nova rota empurrou os corredores para um dos trechos mais degradados do Rio Poti, revelando um cenário desolador: um rio invisível, sufocado por um denso "tapete verde" de aguapés.

Corrida de Bell Marques revela o "cemitério verde" do Rio Poti sob descaso da Águas de Teresina - Foto: Divulgação

O "cartão-postal" do descaso

A ironia do novo percurso atingiu seu ápice quando os atletas passaram em frente à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Leste, de responsabilidade da concessionária Águas de Teresina (Grupo Aegea). No local, o entusiasmo deu lugar ao mal-estar. Milhares de corredores relataram um odor insuportável vindo da unidade de tratamento, justamente no ponto onde a proliferação de aguapés é mais intensa.

Cientificamente, a presença massiva dessas plantas é um bioindicador de poluição extrema.

Os aguapés se alimentam de matéria orgânica proveniente de esgoto doméstico não tratado ou mal tratado. A concentração da vegetação exatamente na saída da ETE levanta dúvidas graves sobre a eficiência do tratamento devolvido ao rio pela concessionária.

Efeito dominó: Do Poti ao Parnaíba

A agonia do Rio Poti não é um problema isolado. Como o rio deságua no Rio Parnaíba, o maior do Piauí, a carga de nutrientes e poluentes acaba contaminando todo o ecossistema estadual. Vale lembrar que a Aegea também é responsável pelo saneamento em outras regiões do estado através do Águas do Piauí, o que amplia a preocupação sobre o modelo de gestão hídrica adotado.

A alteração do percurso, que causou revolta e pedidos de reembolso por parte de corredores que não concordaram com a mudança súbita, acabou por prestar um serviço involuntário à cidade. Se na Raul Lopes o rio parece "limpo" para as fotos de rede social, na zona Leste a realidade é de um ecossistema em colapso.

Ponto de Ruptura

A prefeitura de Teresina, ao empurrar o evento para fora da Raul Lopes através da Strans, acabou tirando o tapete da sala e mostrando a sujeira escondida no corredor. O sucesso de Bell Marques foi o palco para o fracasso da Águas de Teresina e do poder público.

É inadmissível que, em pleno 2025, o teresinense seja obrigado a correr ao lado de um "rio morto", sentindo o cheiro da ineficiência de uma empresa que cobra taxas de esgoto elevadas, mas entrega aguapés e degradação. O Rio Poti não precisa de mais operações paliativas de limpeza; precisa de saneamento real e fiscalização severa. A corrida de hoje provou que a saúde da cidade está tão asfixiada quanto as águas do nosso Poti.


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*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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