01 de maio de 2026 às 20:15 ▪ Atualizado há 1 mês
A crise política em Pio IX cidade que fica no sul do Estado do Piauí ganhou um novo capítulo, e talvez o mais delicado até aqui.
A vereadora Eliane Arrais Bezerra de Alencar Maia, do MDB, protocolou, no dia 27 de abril, um pedido formal de cassação do mandato do prefeito Silas Noronha Mota, preso e afastado desde 10 de abril por suspeita de participação em um esquema de exploração sexual de adolescentes entre 13 e 14 anos.
Prefeito Silas Noronha Mota e vereadora Eliane Arrais Bezerra de Alencar Maia - Foto: Reprodução
O que o documento não explicita, mas muda completamente o peso político da ação, é o seguinte: Eliane é irmã do atual prefeito interino, Etinho Bezerra, o vice que assumiu o comando da cidade após a prisão de Silas.
A formalidade jurídica existe. Mas o contexto político levanta perguntas.
A Coluna Ponto de Ruptura teve acesso exclusivo ao documento de oito páginas, recebido pela Câmara Municipal no dia 27 de abril.
O pedido de cassação se apoia no Decreto-Lei nº 201 de 1967, que trata da responsabilidade de prefeitos em todo o país.
Trecho do pedido de cassação
A vereadora sustenta que a conduta atribuída a Silas Noronha configura infração político-administrativa, passível de cassação independentemente da conclusão do processo criminal. O texto invoca o artigo 4º, inciso X, que prevê perda de mandato para quem proceder de modo incompatível com a dignidade e o decoro do cargo.
A peça cita as denúncias feitas por Liedson Alves, a prisão do sobrinho do prefeito, Samuel Lopes Noronha, e o afastamento cautelar determinado pela Justiça.
Também solicita a abertura de Comissão Processante, com direito à defesa, produção de provas e julgamento em plenário.
Do ponto de vista técnico, o pedido encontra respaldo.
Mas política não é só técnica.
Etinho Bezerra, foi eleito vice-prefeito e reeleito em 2024 na mesma chapa de Silas Noronha.
Prefeito Silas Noronha Mota e vice Etinho Bezerra - Foto: Reprodução
Com a prisão do titular, assumiu a prefeitura no dia 11 de abril.
Menos de três semanas depois, sua própria irmã protocola o pedido de cassação definitiva do prefeito afastado.
Eliane, por sua vez, também é do MDB, o mesmo partido do irmão.
E há pouco mais de um ano, em dezembro de 2024, estava ao lado de Silas na cerimônia de diplomação. Aliados políticos, registro público, sorrisos e celebração.
Agora, a mesma aliada assina o documento que pode encerrar a carreira política do ex-companheiro de chapa.
O intervalo entre os dois momentos é curto.
O movimento, calculado.
As denúncias vieram a público em 22 de março. A CPI foi instalada em 31 de março. As prisões ocorreram em 9 e 10 de abril.
Em seu pertil no Instagram, a descrição já foi atualizada: "Prefeito de Pio IX, Piauí" - Foto: Reprodução
Etinho assumiu em 11 de abril.
O pedido de cassação só foi protocolado agora no início desta semana, em 27 de abril.
Cinco semanas após o escândalo. Dezessete dias depois que o novo prefeito já estava no cargo.
Tempo suficiente para que o cenário político se reorganizasse. Ou para que decisões fossem amadurecidas.
Depende de quem observa.
Um elemento adiciona ainda mais tensão ao caso.
Segundo reportagem do Portal R10, áudios obtidos na investigação indicam que Silas Noronha teria orientado Liedson Alves a procurar Eliane para construir uma nova versão dos fatos.
A proposta envolveria promessa de emprego na Secretaria de Assistência Social, ajuda financeira e, em troca, silêncio.
A Eliane mencionada é identificada, no contexto político local, como a vereadora Eliane Arrais Bezerra.
Se confirmado, o quadro ganha contornos ainda mais complexos.
A mesma pessoa que hoje pede a cassação teria sido citada como possível ponte para conter o escândalo.
Silas Noronha foi reeleito prefeito de Pio IX em 2024 com 63,99% dos votos.

Em março de 2026, denúncias vieram à tona apontando um suposto esquema de exploração sexual envolvendo adolescentes, com intermediação de um aliado político.
Em 10 de abril, Silas se apresentou à polícia, ficou em silêncio e teve celulares apreendidos.
A Justiça determinou prisão temporária de 30 dias e afastamento do cargo por 90 dias.
As investigações seguem sob segredo de Justiça. A CPI está em andamento na Câmara.
E, até o momento, não há condenação definitiva.
Silas nega todas as acusações e afirma ser vítima de perseguição política.
Denúncia - Câmara Pio IX.pdf
No papel, trata-se de um processo de responsabilização política.
Na prática, o caso escancara algo mais sensível.
Um prefeito ainda não julgado. Uma denúncia grave, mas em apuração. Uma mudança de poder rápida.
E um pedido de cassação vindo de dentro da própria base.

Com um detalhe impossível de ignorar. O beneficiário direto da cassação é o atual ocupante da cadeira, irmão da autora do pedido.
O cenário permite várias leituras.
Entre elas, uma pergunta inevitável…
Estamos diante de um movimento legítimo de moralização pública ou de um caso clássico de oportunismo político em meio a uma crise?
A resposta, como quase sempre na política, não está no documento.
Está no olhar de quem lê.
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