Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

Grupos do Piauí fazem denúncia pública em evento nacional do Ministério da Cultura

Crise exposta em Aracruz (ES) evidencia fragmentação da cultura piauiense, onde antigos aliados se enfrentam em torno de editais, representação institucional e controle simbólico da política cultural.

Por Willian Tito

25 de maio de 2026 às 08:53 ▪ Atualizado há 1 semana


Enquanto tambores ecoavam, bandeiras de Pontos de Cultura coloriam os corredores e representantes de coletivos de todo o Brasil ocupavam Aracruz, no Espírito Santo, para mais uma edição da TEIA Nacional da Cultura Viva, um grupo de piauienses decidiu transformar desconforto em denúncia pública. Não foi gesto improvisado. Foi calculado. Estratégico. Profundamente simbólico.

Longe de Teresina, embora o documento leve o nome da capital e data anterior ao evento, distante das estruturas oficiais da política cultural piauiense e fora do ambiente onde, segundo eles, já não encontravam espaço de escuta institucional, artistas, produtores culturais, representantes de coletivos, pontos de cultura e agentes da cultura viva decidiram levar ao cenário nacional um manifesto duro contra a condução das políticas culturais no Piauí. Os grupos entenderam que precisavam sair do próprio estado para conseguir ser ouvidos.

A denúncia não nasceu em Aracruz. Ela apenas recebeu a projeção da câmara de eco nacional. Há muito tempo já circula nos bastidores culturais piauienses, em conversas reservadas, grupos de WhatsApp, reuniões tensas, corredores de eventos, comentários discretos após resultados de editais e insatisfações acumuladas desde os tempos da Lei Aldir Blanc, na época da pandemia.

Aqui, as críticas pareciam não ultrapassar determinados limites de alcance. Levar o conflito para o maior encontro nacional de cultura viva do país foi uma estratégia para furar os bloqueios de comunicação. A movimentação funcionou.

Ao sair do circuito regional e ocupar um espaço nacional com presença do Ministério da Cultura, da ministra Margarete Menezes, representantes de diversos estados, movimentos culturais históricos e até do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a denúncia deixou de ser tratada como ruído localizado. Ganhou dimensão política.

A delegação piauiense, com mais de 50 representantes, com a presença do secretário de Cultura, Rodrigo Amorim, chegou animada para celebrar os 20 anos de sucesso da Política Cultura Viva. Participativa, fez a sua parte institucional e, antes de encerrar o evento, encontrou o momento mais adequado para ganhar a atenção dos demais participantes.

Aracruz transformou uma insatisfação estadual em pauta nacional. A crise cultural piauiense não parece apenas divergência sobre editais. Aponta sinais claros de ruptura interna dentro do próprio campo cultural. O manifesto revela um ambiente fragmentado. Desgastado. Polarizado.

Incrementando os elementos da tensão, vozes críticas atuais, que já estiveram próximas, integrando ou participando das próprias estruturas culturais, hoje questionam. Não se trata apenas de oposição externa. É fratura exposta dentro da própria rede que sustentou, em diferentes momentos, a gestão cultural recente.

 Delegação piauiense marcou presença política na 6ª TEIA. Montagem: reprodução redes sociaisDelegação piauiense marcou presença política na 6ª TEIA. Montagem: reprodução redes sociais

O cenário é complexo. As críticas carregam não apenas divergência administrativa, mas também ressentimentos acumulados, disputas de representação, rompimentos políticos, afastamentos pessoais e conflitos internos sobre quem realmente representa a cultura piauiense contemporânea. O que um dia foi unidade em torno da reconstrução das políticas culturais, agora começa a revelar rachaduras perigosas.

A crise denunciada em Aracruz acontece no momento em que a política cultural brasileira vive uma expansão histórica. Após anos de desmonte institucional, a retomada do Ministério da Cultura, a chegada da Política Nacional Aldir Blanc e a reorganização do Sistema Nacional de Cultura trouxeram novo fluxo de recursos, fortalecimento de editais e descentralização de investimentos.

Junto com o um grande volume de dinheiro, vieram também disputas, tensões, ressentimentos, suspeitas, guerras simbólicas e conflitos por reconhecimento. O recurso público cultural nunca é apenas dinheiro. É legitimidade. Quando um projeto é contemplado, o Estado não está apenas financiando uma ação artística. Ele referenda o que e quem é importante, representa e merece visibilidade.

É por isso que as disputas culturais contemporâneas se tornaram tão intensas. E a tendência é aumentar. A grande denúncia dos grupos piauienses não é simplesmente queixa sobre editais. A acusação mais grave é que parte dos agentes culturais não acredita plenamente na neutralidade dos mecanismos de seleção.

A crise institucional se profunda quando um artista reclama por não ser aprovado. Muitas vezes com razão. O que implode o sistema e fortalece a coragem para denunciar é acreditar que a disputa começa desigual. O manifesto apresentado em Aracruz fala em perseguição política; ausência de fundamentação técnica; favorecimentos; exclusão histórica; abandono do interior; invisibilidade de grupos críticos; e dificuldade de acesso aos mecanismos públicos.

A denúncia é pesada porque toca na confiança, o que qualquer política pública mais preza. Confiança cultural é extremamente delicada. Uma vez rompida, dificilmente se recompõe apenas com notas oficiais ou resultados publicados em diário administrativo. Outro aspecto importante revelado pela crise é o choque entre técnica e território.

Os editais culturais modernos tentam equilibrar mérito técnico, descentralização, diversidade, inclusão social, reparação histórica, territorialidade e inovação. É bem complexo. O equilíbrio raramente acontece sem conflito. Grupos tradicionais reclamam perda de espaço. Coletivos periféricos denunciam elitização burocrática. Agentes culturais do interior afirmam não conseguir competir em igualdade estrutural.

A denúncia sobre exclusão digital e dificuldades técnicas enfrentadas pelos grupos culturais interioranos é uma das partes mais contundentes do manifesto. Paradoxo brutal. Políticas criadas para democratizar acesso ainda dependem de ferramentas altamente burocráticas, digitais e técnicas.

Na prática, quem domina formulários, linguagem administrativa e plataformas eletrônicas frequentemente larga na frente de quem domina a experiência cultural viva dos territórios. As diferenças vêm se acentuando num ressentimento crescente. Ressentimento cultural é perigoso. Mal resolvida, a mistura de identidade, sobrevivência, pertencimento e reconhecimento simbólico, está sempre pronta a resistir. Porque foi forjada nas crises, dificuldades, precarização e escassez.

O Conselho Estadual de Cultura também entra no centro da crise. Os grupos denunciam distanciamento entre representação institucional e bases culturais organizadas. A discussão não é exclusiva do Piauí. O Brasil inteiro vive o debate sobre quem ocupa os espaços de decisão? Quem representa os territórios? Quem fala em nome da cultura? Quem permanece historicamente próximo do poder? Quem consegue circular entre editais, conselhos e estruturas oficiais?

A cultura brasileira atravessa a fase curiosa onde os mecanismos públicos de financiamento são generosos e simultaneamente gerem tanta desconfiança sobre os critérios de acesso aos mecanismos. Mais dinheiro. Mais editais. Grande participação. E também mais judicialização, mais fragmentação, mais polarização e mais disputas narrativas.

O setor cultural começa a reproduzir as mesmas doenças clássicas da política tradicional. Grupos fechados, suspeitas permanentes, guerras de legitimidade, personalismos e batalhas por hegemonia simbólica. O aspecto mais forte de toda essa história é inteligência política do movimento feito em Aracruz. Os grupos compreenderam que a disputa local precisava ganhar nacionalização para produzir impacto real. E conseguiram.

 O secretário de Cultura, Rodrigo Amorim, chefiou a delegação piauiense. Montagem: reprodução redes sociaisO secretário de Cultura, Rodrigo Amorim, chefiou a delegação piauiense. Montagem: reprodução redes sociais

Ao levar o manifesto para dentro da TEIA Nacional, os piauienses romperam o isolamento regional da discussão. Transformaram bastidores em documento. Converteram murmúrios em denúncia pública. Retiraram a crise do campo privado e a colocaram diante do Brasil cultural. Foi uma operação política eficiente.

Independentemente de concordâncias ou divergências sobre o conteúdo das acusações, o gesto gerou pauta e ganhou visibilidade. O que acende um alerta do desgaste, que pode aumentar, caso não haja uma intervenção significativa. A crise cultural do Piauí ultrapassou a esfera administrativa. Ela agora é narrativa. Simbólica. Política. Institucional. Há uma pergunta silenciosa. “Quem tem direito de existir culturalmente dentro das estruturas oficiais do Estado?”

Quando artistas da base começam a denunciar medo, invisibilidade, perseguição e desconfiança dentro das próprias políticas públicas criadas para fomentar cultura, o problema deixa de ser apenas burocrático. Passa a ser civilizatório. Cultura não é somente entretenimento. Cultura é memória. É voz e identidade coletiva. Nenhum povo suporta por muito tempo a sensação de que precisa pedir autorização política para existir artisticamente.

MANIFESTO APRESENTADO EM ARACRUZ - ESPÍRITO SANTO. Acessível neste link.

CARTA MANIFESTO DOS FAZEDORES E FAZEDORAS DE CULTURA DO PIAUÍ

TEIA NACIONAL – ARACRUZ/ES

 

Nós, fazedores e fazedoras de cultura, produtores culturais, artistas, mestres e mestras da cultura popular, comunidades tradicionais de matrizes africanas, pontos de cultura, coletivos culturais, grupos periféricos e movimentos sociais do estado do Piauí, tornamos pública nossa profunda indignação diante da forma como vêm sendo conduzidos a política pública e os processos de avaliação e execução da Política Nacional

Tornamos pública nossa urgência no atendimento de uma das mais recorrentes e legítimas reivindicações da classe trabalhadora da cultura em todo o Piauí: a reformulação da estrutura organizacional do Conselho Estadual de Cultura, que hoje não segue as diretrizes estabelecidas pela Lei Federal nº 14.835, de 4 de abril de 2024, que institui o marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura (SNC). No Conselho de Cultura do Piauí a participação não é paritária e os membros não são eleitos de forma direta pelos seus pares. Também manifestamos nossa profunda indignação diante da forma como vêm sendo conduzidos a principal política pública de fomento do estado o SIEC e os processos de avaliação e execução da Política Nacional Aldir Blanc – PNAB no estado do Piauí e em diversos municípios piauienses.

As denúncias e reclamações acumuladas desde a Lei Aldir Blanc até a PNAB Ciclo 2, incluindo SIEC, revelam um cenário de insegurança, perseguição política, falta de transparência, ausência de diálogo institucional e exclusão histórica dos verdadeiros agentes culturais que constroem a cultura viva nos territórios.

No caso específico dos editais da PNAB do Governo do Estado do Piauí, através da Secretaria de Estado da Cultura – SECULT, temos observado pareceres praticamente padronizados, sem fundamentação técnica clara, sem justificativas individualizadas e sem transparência sobre os critérios reais de avaliação e desclassificação dos projetos. Muitos artistas relatam a sensação de que os projetos não foram analisados de maneira humana e técnica, mas apenas submetidos a respostas genéricas, desrespeitando a trajetória e a dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura.

É inadmissível que projetos históricos, construídos por grupos tradicionais, artistas populares, povos de terreiro, coletivos negros, indígenas, periféricos e culturais do interior do estado estejam sendo sistematicamente excluídos sem direito a respostas claras e objetivas. 

Denunciamos também o tratamento desigual ocorrido durante a TEIA Estadual do Piauí, onde uma delegada ( Poliana Sepúlveda ) legitimamente eleita de forma pública pelos delegados presentes foi posteriormente retirada da delegação, simplesmente porque um representante de organização afirmou que não assinaria a documentação necessária para emissão da passagem. Tal atitude representa grave violação da democracia participativa, desrespeito ao processo coletivo e autoritarismo institucional.

O que estamos vivendo no Piauí não é um caso isolado. Há um sentimento generalizado de perseguição contra grupos culturais que se posicionam criticamente ou que se recusam a permanecer em silêncio diante das injustiças. Muitos fazedores de cultura denunciam que vêm sendo excluídos sistematicamente dos editais estaduais desde os tempos da Lei Aldir Blanc, principalmente aqueles artistas históricos que possuem trajetória reconhecida de luta e atuação social.

É preciso afirmar: cultura não pode ser instrumento de perseguição política, acordos eleitorais ou favorecimentos pessoais.

Enquanto isso, os grupos culturais do interior seguem enfrentando enormes dificuldades estruturais: ausência de acesso à internet de qualidade, dificuldades de leitura e escrita técnica, falta de assessoria e exclusão digital. Mesmo assim, continuam tentando acessar as políticas públicas culturais. Porém, infelizmente, muitos relatam que os projetos não são avaliados pela sua importância cultural, mas sim por quem os apresenta.

Diante desse cenário, denunciamos publicamente:

A falta de transparência nos processos de avaliação da PNAB no Piauí;

A ausência de fundamentação técnica adequada nos pareceres;

As práticas de exclusão e perseguição política contra grupos culturais críticos;

O desrespeito às decisões democráticas da TEIA Estadual;

O abandono das comunidades culturais do interior;

A omissão dos órgãos responsáveis diante das denúncias já realizadas ao Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e demais instituições competentes.

Solicitamos ao Ministério da Cultura – MINC, ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e aos órgãos de controle:

A apuração rigorosa da aplicação dos recursos públicos destinados à cultura;

A fiscalização dos processos de avaliação e seleção dos editais;

A criação de mecanismos mais transparentes, populares e acessíveis de participação;

A proteção dos grupos culturais vítimas de perseguição institucional;

A garantia de que os recursos públicos cheguem verdadeiramente na ponta, aos fazedores de cultura.

Também defendemos a construção de um novo modelo nacional de avaliação cultural, mais humano, democrático, descentralizado e inclusivo, que respeite as diversidades regionais, os saberes tradicionais e as realidades dos territórios periféricos, quilombolas, indígenas e de matriz africana.

A cultura brasileira resiste graças aos seus povos, suas ancestralidades e seus territórios.

Não aceitaremos o silenciamento dos fazedores e fazedoras de cultura.

Que esta TEIA Nacional seja um espaço de escuta, coragem, denúncia e transformação.

 

Teresina (PI), 14 de maio de 2026.

Fazedores e Fazedoras de Cultura do Estado do Piauí, Comunidades Tradicionais de Matrizes Africanas, Pontos de Cultura, Movimentos Culturais e Sociais do Piauí


A matéria tem ampla repercussão e mantém apuração do impacto em várias camadas do segmento cultural. O gesto silencioso tem causado um estrondoso e sonoro protesto.

A parte agastada manifestou-se e a COLUNA LUGAR DE FALA abre o espaço para manter a linha narrativa dos eventos que ainda estão em andamento.

NOTA PÚBLICA - Delegação do Estado do Piauí -3.pdf

A possível associação com parte da delegação pode ter gerado desconforto à foto da capa. A foto foi trocada. Em momento algum é afirmado que a entrega da carta foi feita solenemente pela delegação.

Para ficar mais claro, vamos narrar mais detalhes sobre o fato, que aconteceu numa reunião para gestores. Onde apenas o secretário Rodrigo Amorim e outro gestor não estavam. A carta foi entregue em mãos por liderança cultural popular piauiense à secretária de Cidadania e Diversidade Cultural, Márcia Helena Gonçalves Rollemberg, do MinC.

Em grupos de zap, alguns participantes lamentaram que não tenham sido os delegados em conjunto à entregar a carta que relata a visão dos grupos culturais.

A apuração segue de outros detalhes de fatos que envolvem os que estão apressados em defesa antecipada. O rigor segue o mesmo.

A abertura para acrescentar e incluir as vozes das partes envolvidas permanece com o mesmo propósito para que todos possam ter seu Lugar de Fala.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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