Por Willian Tito
12 de maio de 2026 às 15:07 ▪ Atualizado há 3 semanas
O marketing é a mais sofisticada engenharia emocional já criada pela humanidade. Durante muito tempo, vender era uma operação relativamente simples. Havia produto, vendedor, comprador e, entre eles, uma negociação quase objetiva. O padeiro anunciava pão. O alfaiate mostrava tecido. O mascate atravessava cidades oferecendo quinquilharias, perfumes, tecidos, bugigangas e promessas.
Pra variar, a humanidade complicou tudo. Ou aperfeiçoou? Depende do briefing filosófico. Em algum momento da civilização, alguém percebeu que pessoas não compravam apenas utilidade. Também compravam sensação. Status. Memória afetiva. Reconhecimento social. Ilusão de pertencimento. Expectativa de felicidade. Foi quando começou o marketing, que passou a operar numa camada muito mais profunda da experiência humana.
Chegou e ficou. Entrou na psicologia. Está na linguagem. Principalmente a contemporânea. Hoje, comunicar também é saber promover-se ou uma ideia pessoal. As plataformas de vídeos estão inundadas de canais. São os mais variados tipos de pessoas de todos os lugares do mundo dizendo sem cerimônia o que pensam, defendendo seus pontos de vistas e os cambau.
Na antropologia cotidiana e na construção simbólica do desejo, a marca vale mais que sua própria estrutura física. Muito mais. Há logotipo de empresas que conseguem movimentar bilhões sem fabricar um único parafuso. Tudo atrelado ao símbolo estampado na percepção social. Uma campanha altera comportamento coletivo. Uma estratégia de posicionamento redefine reputações inteiras.
O marketing aprendeu a fazer algo extraordinário ao atribuir valor emocional às coisas. Isso é gigantesco. Imensurável. Quem sabe medir os limites de tamanha possibilidade de ser grande? O ser humano é uma criatura profundamente simbólica. Essencialmente tocada pelas simbologias. Conscientemente ou não. Geralmente não consciente. Não queremos apenas existir. Precisamos significar.
Ninguém compra apenas um relógio. Tudo começou pela sensação subjetiva de controle sobre o tempo, mesmo sabendo que continuará atrasado emocionalmente para metade da própria vida. Ninguém compra somente um perfume. Deseja o olor da presença. A fragrância da sedução. Confiança líquida borrifada em parcelas no cartão. Ninguém leva apenas um carro. Leva uma projeção social motorizada. Arquitetura estética sobre rodas. Afirmação pública de identidade.
Pode parecer exagero. Mas o marketing compreendeu cedo uma verdade que filósofos, dramaturgos e poetas já observavam há séculos. Há quem conteste, mas os seres humanos raramente se movem apenas pela razão. A emoção continua sendo o grande motor invisível da civilização.
Por isso o marketing moderno não vende produto. Vem junto a narrativa. Na história humana, a narrativa tornou-se um território tão disputado quanto agora. Na era da atenção fragmentada, tudo compete por segundos. O aplicativo. A propaganda. O influenciador. O corte de podcast. O reels motivacional com piano épico ao fundo. O político performando indignação em câmera lenta. O empreendedor gritando “bora pra cima” às cinco da manhã como se cortisol fosse método de gestão.
O mundo virou um imenso pregão emocional digital. O ativo mais valioso do planeta já não é petróleo. É atenção humana. A guerra que mais atinge vai direto no desejo que ninguém sabe qual é. Mas é o combustível que nos move como barris da OPEP. As grandes plataformas entenderam isso com precisão quase cirúrgica. Cada clique virou dado. Cada pausa numa tela virou métrica comportamental. Cada curtida se transformou em informação sobre querer, desejar, insegurança, humor, impulso ou vulnerabilidade emocional.
O sujeito pesquisa dor nas costas e imediatamente passa a ser perseguido por colchão ergonômico, mentor postural, suplemento anti-inflamatório, curso de respiração ancestral, cadeira gamer com apoio lombar premium. O algoritmo diz: “Percebi teu sofrimento. Monetizarei isso imediatamente.”
Há algo trágico nessa engrenagem. A humanidade produziu máquinas capazes de estudar comportamento humano numa escala inédita, enquanto o próprio ser humano segue sem compreender completamente a si mesmo. É justamente aí que o marketing se torna fascinante. Ele funciona como radiografia social permanente. Mostra fratura e formosura.
Observe qualquer campanha grande e veja que é muito menos sobre o produto e mais sobre a época em que vivemos. A sociedade insegura produz marketing de autoestima. A sociedade cansada produz marketing de produtividade. A solitária produz marketing de pertencimento. A ansiosa produz consumo instantâneo. A sociedade hiperexposta produz branding pessoal.
As pessoas transformaram a si mesmas em marcas. É um dos fenômenos mais curiosos do século XXI. Todo mundo agora administra percepção. O médico faz posicionamento. O advogado trabalha autoridade. O artista gere engajamento. O político constrói persona. O influenciador transforma rotina em produto audiovisual contínuo.
A vida contemporânea ganhou linguagem publicitária. O cidadão já não almoça apenas. Produz conteúdo gastronômico com identidade visual. Não viaja. Constrói narrativa de experiência. Não envelhece. Faz gerenciamento estratégico de imagem. A espontaneidade virou estética cuidadosamente calculada. Até a imperfeição passou a exigir direção criativa. Existe algo de profundamente exaustivo nisso.
A comunicação sempre foi poder desde antes das pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara até os anúncios hipersegmentados das plataformas digitais. A humanidade tenta desesperadamente contar histórias capazes de mobilizar outras pessoas. Storytelling saltou do mundo do marketing e faz parte do linguajar de muita gente.
O marketing descobriu primeiro como valorar o desejo. Imagem criada com IAO marketing apenas sofisticou uma antiga pulsão humana. Transformou narrativa em estratégia. Afeto em retenção. Carisma em conversão. Presença em ativo econômico. E a política aprendeu rápido a lógica. Campanhas eleitorais já não operam apenas no campo das propostas. Operam no território da percepção emocional. Constrói-se o “gestor técnico”. O “homem simples”. O “pai do povo”. O “outsider antissistema”. O “durão”. O “visionário”. Tudo embalado com direção estética, estudo comportamental e engenharia narrativa.
Às vezes, uma frase poder viralizar mais que um plano administrativo inteiro. O meme se transformou em ferramenta de disputa institucional. A emoção frequentemente derrota o argumento técnico em poucos segundos de vídeo vertical.
Seria intelectualmente preguiçoso reduzir o marketing apenas à manipulação. Há arte legítima nisso. Grandes campanhas conseguem emocionar, provocar reflexão, mobilizar consciência coletiva e até modificar comportamentos sociais relevantes. A publicidade brasileira, inclusive, desenvolveu linguagem própria. Mistura humor, ironia, malícia popular, inteligência estética e improviso criativo quase antropológico.
Somos uma civilização extremamente comunicativa. Para sobreviver num país complexo exige criatividade verbal permanente. O brasileiro vende ideia antes mesmo de ter estrutura. Nasce matriculado. Faz branding antes do capital. Cria slogan antes do orçamento. Transforma gambiarra em conceito. Improvisa futuro com excelência estética improvisada. Isso é marketing de primeira.
O marketing é cada vez menos sobre produtos e mais sobre humanidade. Sobre carência. O desejo. Sempre ele. Medo. Pertencimento. Vaidade. Afeto. Reconhecimento. Ele apenas aprendeu a iluminar com eficiência impressionante o que os seres humanos tentam esconder uns dos outros e de si mesmos.
A grande campanha permanente da humanidade é a tentativa incessante de ser vista, lembrada e desejada num mundo onde desaparecer socialmente passou a parecer uma forma moderna de inexistência. O que sempre correu nas veias silenciosamente, hoje é motivada nas redes sociais. Clamada. Cobrada. Cada um vai descobrir a dose certa de seu exibicionismo. Tem que saber até que ponto é saudável o seu marketing. Mas o marketing não tem nada a ver com isso. É só uma ferramenta poderosa, que exige prudência para usar, não ser usado nem abusado. O marketing é mola. Quem não sabe para onde vai, evite. Quem sabe, aproveite o impulso.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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