Por Willian Tito
31 de maio de 2026 às 12:56 ▪ Atualizado há 2 dias
Nem tudo que importa produz resultado, gera lucro ou melhora desempenho. Nem tudo tem uma finalidade específica. Nem tudo cabe perguntar para que serve. “Serve para ganhar dinheiro? Vai melhorar a produtividade? Amplia resultados? Vai me fazer crescer profissionalmente? Eu vou aparecer mais? Vamos vender mais?”
A humanidade construiu máquinas que cruzam os oceanos, exploram planetas e armazenam bibliotecas inteiras dentro de um telefone. E continua desconfiando de tudo aquilo que não apresenta utilidade imediata. As coisas mais importantes da experiência humana costumam ser profundamente inúteis.
O amor, por exemplo, não serve para nada. Não produz relatórios. Não aumenta indicadores. Não melhora gráficos. Pelo contrário. Muitas vezes atrapalha agendas, embaralha prioridades e provoca decisões que nenhum especialista em gestão recomendaria. Ainda assim, seguimos procurando amor.
A amizade também não apresenta grande eficiência operacional. Amigos fazem perder tempo. Telefonam sem motivo. Contam histórias longas. Repetem casos antigos. Sentam para conversar sobre assuntos que não mudam o destino da economia mundial. E, no entanto, poucas coisas são mais valiosas.
A arte vive enfrentando o mesmo julgamento. Uma música não mata a fome. Um poema não constrói ponte. Peça de teatro não reduz inflação e pintura não conserta estrada. Mas se uma canção tocar na hora certa, muda completamente o humor de uma pessoa. Se um livro ou texto encontrarem o leitor no momento adequado, é capaz de alterar uma existência inteira.
A utilidade da arte não está em resolver problemas práticos. Está em lembrar porque vale a pena resolvê-los. Civilizações antigas já desconfiavam disso. Os gregos criaram uma palavra admirável. Scholé. Dela nasceu o termo "escola". Curiosamente, seu significado original não é trabalho. É tempo livre. O momento dedicado à reflexão, à contemplação e ao aprendizado sem finalidade imediata.
Em outras palavras, a civilização nasceu de pessoas que pararam de correr por alguns instantes. Talvez os gregos se assustassem ao descobrir que, dois milênios depois, transformamos o descanso em culpa e a contemplação em desperdício.
Tem gente tentando ser produtiva até durante o lazer. Há aplicativos para monitorar o sono. Metas para leitura. Estratégias para caminhar. Técnicas para meditar com eficiência. Planilhas para organizar férias. Daqui a pouco alguém criará um curso ensinando como relaxar em alta performance. É só o que está faltando. E o mercado certamente encontrará compradores.
As melhores coisas da vida continuam acontecendo longe dos indicadores. Uma criança desenhando sem preocupação. Um casal observando a chuva. Rede balançando ao vento numa varanda. Conversa fiada atravessando a madrugada. Cachorro dormindo de barriga para cima sem nenhuma culpa existencial. Nenhum dos momentos será registrado na bolsa de valores. Mas todos eles enriquecem a vida.
Pessoas idosas costumam guardar memórias simples quando contam suas histórias. Nunca falam sobre planilhas, metas ou produtividade. Falam de pessoas. Das festas. Das viagens. Das experiências. Das gargalhadas. Dos encontros e desencontros. Das vitórias e experiências. Nunca de derrotas. Porque sempre aprendemos com as vivências. Falam do que parecia inútil na época e se revelou essencial com o passar dos anos. Uma sabedoria silenciosa permeia tudo isso.
Jamais vamos tornar menor o que nos é útil. O mundo precisa de engenheiros, médicos, agricultores, cientistas, jornalistas e trabalhadores de todas as áreas. Precisa de técnica, organização e competência. Mas também precisa de música, de brincadeiras, poesia, contemplação e beleza. A sociedade que valoriza apenas o que produz lucro, acaba produzindo riqueza sem produzir sentido. Vida sem sentido não faz sentido. Por mais eficiente que seja, continua sendo uma vida empobrecida.
Neste domingo, talvez valha a pena praticar uma pequena rebeldia. Sente-se sob uma árvore frondosa. Abrace-a por 1 minuto. Ouça uma canção antiga. Leia algumas páginas sem obrigação. Converse sem olhar o relógio nem abrir o celular. Faça algo que não sirva para absolutamente nada.
À primeira vista, parecerá uma perda de tempo. Mas há uma boa chance de que seja justamente o contrário. Entre todas as invenções humanas, a mais extraordinária é a capacidade de encontrar felicidade nas coisas que não precisam servir para nada. Isso é de uma utilidade imensa. E só no final, falamos em ócio. Que dará outro texto. Bom domingo!
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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