Por Willian Tito
29 de maio de 2026 às 12:48 ▪ Atualizado há 5 dias
Paredões de pedras, risos e mistérios, uma aula de Brasil em apenas 23 minutos. Na mostra competitiva de curtas do Therecine, Rupestre prova que a inteligência pode ser leve, que a ciência pode sorrir e que a Caatinga continua escrevendo histórias para quem aprendeu a escutá-la.
Na noite de ontem, quinta-feira, 28, saí de casa para assistir a um filme no Therecine, que segue até domingo, 31, com sessões gratuitas. Até aí, tudo bem. Afinal, o cinema sempre foi um dos melhores lugares para fugir do mundo por algumas horas. O que eu não imaginava era que acabaria encontrando justamente o contrário. Um filme que me devolvesse ao mundo com mais atenção, mais curiosidade e um sorriso discretamente instalado no rosto. Até aí, tudo ótimo.
O curta Rupestre, assinado pelos irmãos André Pessoa e Augusto Pessoa, ambos no roteiro e direção; e Arthur Pessoa, na trilha sonora, dura apenas 23 minutos. Apenas. Palavra que soa meio inadequada. Há produções de duas horas que dizem menos. Há palestras inteiras que ensinam menos. Há tratados acadêmicos que emocionam menos. Em 23 minutos, Rupestre consegue informar, divertir, provocar reflexão, despertar encantamento e ainda deixar o espectador com a sensação de que talvez esteja enxergando a Caatinga pela primeira vez. Não é pouca coisa.
Antes de falar do filme, é preciso falar dos autores. André Pessoa dispensa apresentações para quem acompanha sua trajetória de fotógrafo, jornalista, escritor e documentarista. Costumo dizer que ele é o pernambucano mais piauiense que conheço. Seu amor pela Caatinga já percorreu páginas de livros, exposições fotográficas, reportagens e documentários. Um afeto antigo, profundo e persistente, de quem convive na Capivara e Confusões desde 1993. Daqueles que não cabem numa profissão. Viram missão.
Ao seu lado está Augusto Pessoa, parceiro de roteiro e direção, compartilhando o mesmo olhar atento para os detalhes que costumam escapar aos observadores apressados. E fechando a trinca, Arthur Pessoa, responsável pela trilha sonora que costura a narrativa com delicadeza, sem excessos, conduzindo emoções sem jamais tentar sequestrá-las.
Os três formam uma espécie de alinhamento astral sertanejo. Trinca de ases. Cada um ocupando sua função com precisão. Sem estrelismos. Sem exibicionismos. À serviço da história. O maior acerto do filme está em compreender que os protagonistas não são apenas os realizadores. Nem mesmo as pinturas rupestres. Os verdadeiros astros da narrativa atendem pelos nomes de Adão, Juvenal e Justino.
Três mateiros. Três caatingueiros. Três homens que carregam nos olhos uma biblioteca inteira de conhecimentos acumulados ao longo de gerações. A maior virtude de Rupestre está em não folclorizar os personagens. Não caricaturar. Não reduzí-los a figuras pitorescas para divertir plateias urbanas. Faz exatamente o contrário. Reconhece neles o que são. Especialistas. Pesquisadores do território. Leitores experientes da paisagem. Homens capazes de interpretar sinais que a maioria de nós atravessaria sem perceber.
Alguns cientistas observam a natureza por meio de satélites, mapas, tabelas e microscópios. Adão, Juvenal e Justino decifram a Caatinga por outros instrumentos. O vento. As pedras. Os rastros. Os pássaros. Os silêncios. A passagem do tempo. A memória herdada dos mais velhos. É conhecimento empírico em sua forma mais refinada. Uma ciência construída pela convivência. Pela observação, repetição, experiência e ancestralidade.
Cartaz da estreia do filme em circuito nacional. Foto: reproduçãoEntão surge o humor. Não aquele humor fabricado. Escrito para arrancar risadas. Mas o que nasce naturalmente da inteligência. Da sabedoria, da convivência e do jeito sertanejo de observar o mundo. 100% orgânico. As falas dos três mateiros produzem algo raro. Você ri porque reconhece uma verdade. Uma sacada. Uma percepção inesperada e uma síntese brilhante da condição humana. O sorriso chega sem pedir licença. Quando você percebe, já está envolvido pela conversa. Ou como diz o sertanejo, “quando dá fé”... já está acompanhando as trilhas, procurando figuras nas pedras e olhando para a Caatinga com outros olhos.
O mais curioso é que o filme não abandona sua missão principal. Enquanto diverte, ensina. Encanta e alerta. Aproxima e conscientiza. Tudo com uma elegância que merece aplausos calorosos, como receberam ao final da exibição. Franca e sincera aclamação. Com os astros na primeira fila. Pela primeira vez num cinema.
Em determinado momento, lembrei de uma frase de André Pessoa que considero uma das mais belas definições já produzidas sobre o bioma. Certa vez, no lançamento de um livro, revelou que a Caatinga é uma biblioteca largada no meio do sertão e cujos livros ainda não foram lidos pelos cientistas. A construção é magnífica.
Rupestre também reúne três pesquisadores que ajudam a ampliar a compreensão do universo extraordinário. Deixei para mencioná-los agora não à tôa. A arqueóloga Gisele Daltrini Felice contribui com a leitura científica dos sítios arqueológicos; a doutora Irma Asón Vidal, referência internacional em arte rupestre, oferece interpretações sobre os grafismos deixados pelos antigos habitantes da região; e o botânico José Alves de Siqueira Filho ajuda a revelar a complexidade ecológica da Caatinga
O mérito do filme está em não colocar os especialistas da cátedra num pedestal nem os transformar em autoridades inalcançáveis. Eles aparecem como parte de uma grande roda de conhecimento. Suas análises dialogam naturalmente com as observações dos mateiros, demonstrando que a compreensão de um território tão vasto e complexo depende da soma de diferentes saberes.
A ciência não mora apenas nos laboratórios. Assim como a experiência não habita apenas os caminhos do sertão. Quando pesquisadores e homens da Caatinga observam juntos uma pedra marcada pelo tempo, uma planta resistente ou um desenho ancestral, todos estão fazendo a mesma coisa. Tentando decifrar uma das mais antigas bibliotecas a céu aberto do planeta.
Depois de assistir a Rupestre, é possível acrescentar um novo capítulo. André, Augusto e Arthur Pessoa, ao lado de Adão, Juvenal e Justino; e Gisele, Irma e José, estão nos ensinando a ler a biblioteca. Página por página. Pedra por pedra. Trilha por trilha. Pintura por pintura. Eles nos mostram que a Serra da Capivara não é apenas um sítio arqueológico. Que a Serra das Confusões não é apenas uma paisagem. Que a arqueóloga Niéde Guidon não foi apenas uma pesquisadora extraordinária.
Eles nos lembram que existe uma história brasileira anterior aos livros escolares. Anterior às caravelas, às capitais e aos discursos oficiais. Uma história escrita em pigmentos, rochas, pegadas e memórias. Uma história que continua viva.
Ao final da sessão, tive a sensação de que os 23 minutos haviam passado rápido demais. Sinal inequívoco de que o filme acertou. Quando a arte consegue prender nossa atenção sem gritar, ensinar sem discursar e emocionar sem manipular, estamos diante de algo especial. Rupestre faz isso. E faz sorrindo. As grandes mensagens raramente entram pela força. Entram pela curiosidade, pela beleza e delicadeza. Pela capacidade de nos fazer olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.
Saí do Sesc Cajuína pensando que a Caatinga continua sendo uma das maiores obras abertas do planeta. E que seus livros, felizmente, estão encontrando novos leitores. Alguns deles usam chapéu de mateiro. Outros carregam câmeras e escrevem roteiros. Todos parecem movidos pela mesma vontade de decifrar mistérios e compartilhar encantamentos. Em apenas 23 minutos. O que é um tempo curtíssimo para um filme. Mas um tempo mais do que suficiente para uma obra linda começar a morar dentro da gente. Assistam.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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