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Ponto de Ruptura

Coluna assinada por Thiago Trindade, jornalista e publicitário há 14 anos. Provoca reflexões críticas sobre sociedade, política e negócios no Piauí e Brasil.
Ponto de Ruptura

Dona da Estácio e Afya se juntam e passam a controlar metade das faculdades particulares de medicina do Piauí

Em Teresina, o novo grupo vai concentrar mais da metade das vagas particulares de medicina, e o órgão do governo que fiscaliza a concorrência pode obrigar a venda de uma faculdade.

24 de setembro de 2026 às 19:50 ▪ Atualizado em 24/09 às 19:52

Ver resumo
  • A Afya adquiriu três das seis faculdades particulares de medicina no Piauí, unindo-se à Yduqs, criando o maior grupo de ensino superior particular no Brasil.
  • A fusão inclui as faculdades Uninovafapi e UniFacid em Teresina, e a única faculdade particular de Parnaíba.
  • O negócio ainda necessita da aprovação do Cade devido à concentração de mercado em Teresina, onde pode resultar em menos opções para estudantes.
  • Em caso de concentração excessiva, o Cade pode exigir a venda de unidades.
  • Em Parnaíba, a Afya já é a única faculdade particular, com questões sobre qualidade devido à baixa nota na avaliação do MEC.
  • As universidades públicas do Piauí apresentaram melhores resultados nas avaliações do MEC.
  • A fusão não altera imediatamente a situação dos estudantes, enquanto aguarda-se resultados das análises do Cade e possíveis melhorias de qualidade.

Três das seis faculdades particulares de medicina do Piauí vão passar a ter o mesmo dono. A Afya, dona do Uninovafapi, em Teresina, e da Afya Parnaíba, anunciou nessa quarta-feira (23) que vai se juntar à Yduqs, grupo dono da Estácio e da UniFacid.

 Dona da Estácio e Afya se juntam e passam a controlar metade das faculdades particulares de medicina do Piauí - Foto: ReproduçãoDona da Estácio e Afya se juntam e passam a controlar metade das faculdades particulares de medicina do Piauí - Foto: Reprodução 

Na prática, as duas maiores faculdades particulares de medicina de Teresina, Uninovafapi e UniFacid, vão pertencer à mesma empresa. A única faculdade particular de medicina de Parnaíba entra no mesmo pacote.

Um gigante da educação

A união cria o maior grupo de ensino superior particular do país. Juntas, as duas empresas somam cerca de 1,6 milhão de alunos, 176 unidades em todos os estados e quase 6 mil vagas de medicina por ano.

O negócio ainda não está fechado. Ele precisa da aprovação do Cade, o órgão do governo federal que fiscaliza a concorrência entre empresas, e a previsão é que tudo seja concluído em até um ano.

Por que Teresina preocupa

Hoje, quem quer estudar medicina numa faculdade particular em Teresina tem cinco opções: Uninovafapi, UniFacid, Faculdade CET, UNIFSA e Uninassau Sul. Juntas, elas oferecem cerca de 531 vagas por ano, segundo dados do Ministério da Educação e editais das próprias faculdades.

Só o Uninovafapi tem 171 vagas e a UniFacid, 110. Somadas, são 281 vagas, mais da metade de todas as vagas particulares de medicina da capital, nas mãos de um único grupo.

É esse o ponto que o Cade vai analisar. Quando uma empresa concentra boa parte de um mercado, o risco é o aluno ficar com menos opções e com menos poder de escolha na hora de comparar preço e qualidade. Bancos que acompanham o setor apontam Teresina como uma das três cidades do país onde a união mais chama atenção, ao lado do Rio de Janeiro e de Ji-Paraná, em Rondônia.

Pode ter faculdade vendida

Para aprovar negócios desse tamanho, o Cade costuma exigir que as empresas vendam unidades nas cidades onde ficariam fortes demais. Em Teresina, isso pode significar a venda do Uninovafapi ou da UniFacid para outro grupo.

As empresas vão tentar convencer o governo do contrário. O argumento é que estudante de medicina costuma mudar de cidade e de estado para estudar, então a disputa seria nacional, e não só local. O presidente da Yduqs disse a investidores que acredita ter bons argumentos para aprovar o negócio.

O histórico pesa. Em 2017, o Cade barrou a venda da própria Estácio para o grupo Kroton, hoje Cogna, justamente por causa da concentração.

Parnaíba: sem concorrência particular e sob vigilância do MEC

No litoral, a união não junta faculdades concorrentes, porque a Yduqs não tem curso de medicina em Parnaíba. A Afya já é a única opção particular da cidade. A alternativa é o curso público da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar).

Estudar lá não é barato. Em 2024, a própria faculdade informou mensalidade de R$ 11.807,45 para quem estava entrando no curso de medicina.

Em Parnaíba, a preocupação maior é a qualidade. A Afya Parnaíba tirou nota 2 no Enamed 2025, a nova prova do MEC que avalia os cursos de medicina, a pior nota do Piauí. Desde março, o curso está sob vigilância do Ministério da Educação e proibido de abrir novas vagas até sair o resultado da prova de 2026. Na época, a Afya disse ter sido surpreendida pela decisão, porque ainda aguardava resposta a recursos contra a nota. O Portal Lupa1 acompanhou o caso desde a divulgação: https://lupa1.com.br/noticias/ponto-de-ruptura/medicina-da-afya-parnaiba-tem-pior-nota-do-piaui-no-enamed-e-sofrera-sancoes-do-mec-68289.html

As públicas na frente

A mesma prova mostrou uma diferença clara no Piauí. Os únicos cursos particulares de medicina do estado avaliados foram justamente os três que agora vão ter o mesmo dono. UniFacid e Uninovafapi tiraram nota 3, e a Afya Parnaíba, nota 2.

Todas as universidades públicas avaliadas tiraram nota 4: UFPI em Teresina e em Picos, UESPI e UFDPar. A UFPI também abriu em 2026 um curso de medicina em Floriano.

As outras três particulares de Teresina, CET, UNIFSA e Uninassau Sul, ainda não participaram da prova porque são cursos novos, sem turmas se formando.

O que muda para o estudante

Por enquanto, nada muda para quem já estuda nessas faculdades. Os cursos continuam funcionando normalmente enquanto o governo analisa o negócio.

As respostas que importam vêm nos próximos meses: se o Cade vai obrigar a venda de alguma faculdade em Teresina, e se a Afya Parnaíba vai melhorar a nota no Enamed 2026. Até agora, nenhuma das empresas informou se pretende vender alguma unidade no Piauí.




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