Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

Dez anos soprando o sertão para o futuro

A celebração da primeira década da banda Caju Pinga Fogo transformou o Espaço Cultural do Teresina Shopping em encontro entre música, memória, pesquisa, comunicação e pertencimento.

Por Willian Tito

26 de junho de 2026 às 20:49 ▪ Atualizado há 57 minutos

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  • A Roda de Conversa celebrou os dez anos da banda Caju Pinga Fogo no Teresina Shopping.
  • O encontro promoveu uma interação próxima entre a banda e a plateia, desmontando formalidades.
  • A banda é vista como uma experiência estética que comunica tradição e identidade visual nordestina.
  • Durante a conversa, a palavra "resgate" foi rejeitada; a banda prefere "cultivar" tradições vivas.
  • A banda dialoga com as tradicionais bandas de pífanos do Nordeste, cultivando essas raízes no Piauí.
  • Observa-se um paradoxo em que shoppings valorizam bandas de pífanos mais do que algumas festas juninas.
  • Músicos urbanos da banda escolheram a música tradicional por identificação e pertencimento.
  • A Caju Pinga Fogo é uma referência em cultura do pífano, com trabalhos importantes e reconhecimento no Brasil.
  • Seus integrantes têm trajetória em música, pesquisa e educação, ilustrando um compromisso com a preservação cultural.

Há quem diga que uma boa conversa começa quando o roteiro acaba. Foi exatamente isso que aconteceu na Roda de Conversa que celebrou os dez anos da banda Caju Pinga Fogo, no Espaço Cultural do Teresina Shopping, ontem, 25.

O formato encontrou sua maturidade. A roda deixou de ser palco para virar círculo. Literalmente. Logo no início, os próprios integrantes da banda e o mediador Douglas Machado aproximaram suas cadeiras da plateia. A distância protocolar foi desmontada. Ficaram apenas pessoas contando histórias a outras pessoas. O microfone foi até dispensado e dispensável algumas vezes. É impressionante como uma cadeira pode mudar uma conversa. E como uma conversa pode mudar um olhar.

A noite começou do lado de fora. No cortejo que serpenteou pelos corredores do centro de compras, ficou evidente que a Caju Pinga Fogo nunca foi apenas banda. É uma experiência estética. O pífano conduz, mas não caminha sozinho. A música dança. O corpo responde. Os figurinos conversam com a paisagem simbólica do sertão compartilhado por tantos territórios nordestinos. Cada detalhe revela pesquisa, comunicação e identidade visual. Nada parece gratuito. Tudo comunica.

Boa parte de seus integrantes também fale fluentemente a linguagem do jornalismo. Notícia e cultura fazem um raro dueto. Uma boa matéria também pode afinar um instrumento.

Entre uma memória e outra, surgiram revelações que só uma roda de conversa permite. Descobrimos que eles rejeitam a palavra "resgate". E fazem muito bem. Resgatar parece buscar algo perdido. O que fazem é diferente. Eles cultivam. Mantêm vivo. Regam uma tradição que nunca morreu. Essa compreensão aproxima a banda das grandes matrizes das bandas de pífanos do Nordeste.

 O mediador conduziu a facilitação da fluência da Roda de Conversa. Foto: Willian TitoO mediador conduziu a facilitação da fluência da Roda de Conversa. Foto: Willian Tito

Em Pernambuco, a histórica Banda de Pífanos de Caruaru, fundada em 1924 pela família Biano. No Ceará, os lendários Irmãos Aniceto e a secular Banda Cabaçal, herdeira de uma tradição que atravessa mais de dois séculos. O Piauí talvez não tenha sido o berço dessa história. O Piauí também tem seus representantes longevos em Simões e São Raimundo Nonato. E deve ter muito mais. A cultura popular sempre pula os mapeamentos, que exigem inscrição. Até entenderem que só com a busca ativa terão alguma chance de “cartografar” os artistas fora de catálogo.

Mas, curiosamente, o Piauí vem se tornando um de seus mais importantes jardins. O protagonismo ganha ainda mais significado ao se observar um paradoxo dos nossos tempos. Algumas das maiores festas juninas do Nordeste relegam as bandas de pífanos aos horários mais ingratos ou quando não esquecem e ficam fora da programação. Um shopping center abre espaço à tradição, ocupando o centro da cena. O Piauí fica bem na foto e na linguagem.

Uma das belezas constatadas da noite foi registrada nos músicos de origem predominantemente urbana, que escolheram dedicar suas vidas a uma manifestação cuja raiz nasceu muito antes do concreto. Não por nostalgia. Por pertencimento. Por identificação. Por afinidade. Por encanto. A tradição também escolhe seus guardiões.

Existe uma antiga narrativa sobre o Flautista de Hamelin. Bastava o primeiro sopro para que todos o seguissem e ele levava-os aonde quisesse. Com os pífanos acontece algo parecido, mas infinitamente mais generoso. Não há encantamento para conduzir ao desconhecido. Há convite para celebrar a vida.

 A dramaturga Isis Baião participando com sua lucidez iluminada. Foto: Willian TitoA dramaturga Isis Baião participando com sua lucidez iluminada. Foto: Willian Tito

Dizem alguns estudiosos que a flauta talvez tenha sido o primeiro instrumento de sopro criado pela humanidade. Se for verdade, cada pífano carrega um pouco da infância da música. É como se cada nota lembrasse ao mundo de onde ele veio.

A magia aconteceu. Eu vi. Nos adultos esquecendo a solenidade por alguns minutos. Nas crianças entendendo a música antes mesmo de compreenderem sua história. Vi gente sorrindo para desconhecidos. Vi pés encontrando o compasso sem pedir licença ao cérebro.

A roda virou cortejo. O cortejo virou dança. A dança virou memória. Quando o último acorde silenciou, ninguém parecia disposto a voltar imediatamente para casa. Algumas músicas terminam e outras mudam de endereço. Ontem à noite, a Caju Pinga Fogo soprou seus pífanos e o coração de muita gente resolveu segui-los.

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Fundada em 2016, em Teresina, a Caju Pinga Fogo consolidou-se como uma das principais referências da cultura do pífano no Brasil. Em dez anos de estrada, lançou o álbum Rosa dos Ventos (2019), o audiovisual Sessão Terrero (2020), o EP Marthe Sessions (2022) e o elogiado Detrás da Serra (2025), gravado em Petrolina (PE), reafirmando o diálogo entre o Piauí e os grandes territórios da tradição pifeira nordestina.

 CapaDouglas Machado, Leo, Javé, Tauana, Rafaela e Beto, no centro da imagem. Foto: Willian Tito  

Quem são esses artistas que sopram o Piauí tão longe em alto e bom som? A formação atual reúne Leo Mesquita (pife), Beto Boreno (pife), Tauana Queiroz (zabumba), Rafaela Gomes (dança e pratos) e Javé Montuchô (tarol). Cada integrante traz uma trajetória que ultrapassa a própria banda, acumulando experiências na música, na pesquisa, na comunicação, na educação e em diferentes projetos culturais. São artistas que compreenderam que tocar bem é apenas o começo. É preciso estudar, investigar, ensinar, compartilhar e devolver à sociedade o que dela receberam.

A Caju Pinga Fogo soa inteira. Não é fruto de improviso nem de modismo. É consequência de talento, disciplina e curiosidade intelectual. O resultado é um grupo que honra a tradição sem copiá-la, cria sem romper com suas raízes e demonstra que o Piauí ocupa, hoje, um lugar de destaque na preservação, no cultivo e na reinvenção das bandas de pífanos brasileiras. É arte feita com os pés fincados na terra e os ouvidos voltados para o futuro. Vida longa à Caju Pinga Fogo!

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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