Por Willian Tito
23 de junho de 2026 às 19:30 ▪ Atualizado há 1 dia
Cheiro de lenha, milho assando, café passado mais forte. Bandeirinhas atravessam ruas, quintais e acendem lembranças. O dia 23 não é propriamente a festa. A véspera é o coração acelerado antes dela.
O Nordeste, sábio em transformar expectativa em celebração, reinventou uma maneira elegante de esperar acendendo fogueiras. Lembrando o relato bíblico que avisava a chega de São João, mas é muito mais que uma festa cristã, que celebra o nascimento do profeta primo de Jesus. É a filosofia popular e a pedagogia do encontro. Uma aula prática sobre pertencimento.
Tudo começa invisível. Como as melhores coisas da vida. As cidades mudam de comportamento. Os quintais ganham movimento. As cozinhas assumem o comando dos acontecimentos. As famílias se reorganizam ao redor de receitas que não estão escritas em livros, mas na memória afetiva de gerações inteiras.
A pamonha, receita da vovó, é quase uma carta de amor. A canjica bem feita deveria ser reconhecida como patrimônio emocional. E o bolo de milho continua sendo uma das provas mais contundentes que a felicidade pode ser servida em fatias.
Enquanto isso, nos arraiais, as quadrilhas fazem apresentações magistrais. A dedicação à cultura popular está viva nos grupos juninos. Durante meses, costuram figurinos, levantam recursos, enfrentam dificuldades, ensaiam passos, corrigem detalhes, repetem movimentos até que a arte encontre o seu ponto exato.
Quando as luzes se acendem, o público vê alguns minutos de espetáculo. Mas quem conhece o bastidor sabe que está assistindo a meses de sonhos transformados em coreografia.
A beleza também precisa ser protegida. As manifestações tradicionais seguem resistindo num tempo que valoriza o instantâneo, o descartável e o algoritmo. Grupos lutam para manter viva a tradição que não produz apenas entretenimento. Produz identidade.
Cada quadrilha preservada é uma biblioteca sem paredes. Cada sanfona tocada é um arquivo vivo. Cada terreiro iluminado para apresentação de um Boi é capítulo da história nordestina recusando o esquecimento. Além de admirar a cultura popular, é preciso garantir que ela continue existindo.
A esperança vence. Sempre vence. Junho é o mês que o Nordeste decide celebrar, apesar das dificuldades. Apesar das contas, das preocupações, das crises e das nuvens, a festa acontece. Quando acontece, milhares de pessoas voltam a compartilhar o mesmo espaço, a mesma música, a mesma emoção.
Num mundo tão dividido, isso é revolucionário. Por isso o 23 de junho merece todo o respeito. É o mestre-de-cerimônias invisível. Guardião da expectativa. Último suspiro antes da explosão de alegria.
Neste ano, a noite parece ter preparado um espetáculo extra. Basta olhar para cima. Mercúrio, Júpiter, Vênus e a Lua dividem o mesmo palco celeste, alinhados como se também participassem da grande quadrilha cósmica de junho. Talvez seja coincidência, poesia. Talvez os antigos estivessem certos quando acreditavam que céu e terra conversam mais do que imaginamos.
Que os astros iluminem os caminhos, abençoem as quadrilhas, inspirem os músicos, dançarinos, costureiras, marcadores, sanfoneiros e brincantes. Que derramem sua luz sobre as festas dos bairros, das comunidades, dos arraiais e, especialmente, dos terreiros, onde a tradição continua encontrando abrigo, resistência e afeto.
Nesta noite, façamos como ensinaram nossos avós. Ergamos os olhos e celebremos. “Olha pro céu, meu amor.”
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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