Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

EXCLUSIVO: Planeta Terra exerce seu Lugar de Fala

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a Coluna abre espaço inédito à aniversariante da data, depois de bilhões de anos girando pelo universo sem nunca antes ser ouvida por ninguém.

Por Willian Tito

05 de junho de 2026 às 16:58 ▪ Atualizado há 1 hora


Antes de mergulhar na leitura de hoje, uma observação. Costumamos ouvir cientistas, ambientalistas, gestores públicos, agricultores, empresários e ativistas quando o assunto é meio ambiente. Todos têm muito a dizer. Mas, neste 5 de junho, a Lugar de Fala resolveu fazer um exercício de imaginação.

E se a própria Terra pudesse falar?

O Dia Mundial do Meio Ambiente, que vamos absorver como a data de aniversário institucionalizado do planeta Terra, a voz é dela. Instituída em Assembleia Geral das Nações Unidas, em 15 de dezembro de 1972, a efeméride celebra uma jovem senhora de 4,5 bilhões de anos.

Testemunha do nascimento e extinção de espécies, formação de oceanos, deslocamento de continentes e ascensão da humanidade, o que ela teria a nos dizer? Como avaliaria nossa passagem por sua superfície? Estaria indignada, decepcionada, esperançosa ou apenas intrigada com uma espécie capaz de criar sinfonias e queimadas, telescópios e guerras, vacinas e desertos?

A seguir, cedemos o espaço da coluna à personagem mais antiga de todas. Com a experiência de quem já atravessou eras geológicas e uma leve ironia diante daquilo que os humanos insistem em chamar de inteligência. Hoje, o Lugar de Fala é dela. A Terra.

---

Hoje é meu dia. Eu gostaria de dizer algumas coisas.

Antes de qualquer coisa, agradeço pela homenagem.

Confesso que fico um pouco constrangida com datas comemorativas. Uma vez por ano vocês lembram que eu existo, publicam fotografias de florestas, abraçam árvores, compartilham frases inspiradoras e prometem mudar o mundo na segunda-feira seguinte. Na terça, quase tudo volta ao normal. Mas não vou reclamar. Aprendi a ser paciente.

Tenho aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Quando se vive tanto tempo, a paciência deixa de ser uma virtude e passa a ser uma necessidade. Já vi continentes inteiros mudarem de lugar. Assisti oceanos nascerem onde antes havia deserto. Vi montanhas surgirem do fundo do mar. Presenciei o desaparecimento de espécies que pareciam eternas. Sobrevivi a meteoros, eras glaciais, vulcões colossais e mudanças climáticas naturais que fariam muitos de vocês perderem o sono.

Preciso confessar uma coisa. Não estou particularmente preocupada comigo. Estou preocupada com vocês. Eu continuo girando. Vocês é que parecem determinados a testar os limites da própria permanência. Aliás, tenho que dizer que ainda não consegui compreender completamente a famosa inteligência humana. Não me entendam mal. Ela é impressionante.

Vocês criaram telescópios capazes de observar galáxias localizadas a milhões de anos-luz de distância. Desenvolveram computadores extraordinários. Sequenciaram o código genético da vida. Produziram sinfonias, poemas, vacinas, satélites, bibliotecas e obras de arte capazes de emocionar alguém séculos depois de seus autores terem partido. Também inventaram maneiras extremamente sofisticadas de destruir o que os mantém vivos.

Perdoem minha sinceridade, mas isso me deixa um pouco confusa. Vocês conseguem enviar sondas ao espaço profundo e, ao mesmo tempo, incendiam florestas para resolver problemas que poderiam ser solucionados sem fogo. Criam sistemas complexos para prever o clima e ignoram os alertas quando eles não combinam com seus interesses. Produzem estudos detalhados sobre biodiversidade enquanto promovem a extinção das espécies que estão estudando.

Sei que a palavra inteligência é ampla. Talvez eu não tenha entendido corretamente a definição. Porque, do ponto de vista de um planeta, parece estranho que a única espécie capaz de compreender as consequências dos próprios atos continue repetindo comportamentos que a prejudicam.

Mas não pensem que estou zangada. Na verdade, estou intrigada. Muito. Vocês são uma espécie fascinante. Capazes do melhor e do pior quase ao mesmo tempo. No mesmo dia em que alguém derruba uma floresta, outra pessoa planta milhares de árvores. Enquanto alguns poluem rios, outros dedicam a vida inteira à recuperação das nascentes. Se alguém espalha destruição, outro oferece proteção. É como se duas humanidades habitassem a mesma humanidade. Uma constrói. Outra desmonta. E eu observo ambas.

Tenho ouvido vocês falarem muito sobre mudanças climáticas. Sim, elas existem. E sim, estou sentindo seus efeitos. Quando minhas florestas desaparecem, meu equilíbrio se altera. Quando os rios adoecem, os ciclos da água sofrem. Quando o calor aumenta, minhas engrenagens naturais precisam trabalhar de forma diferente.

Imaginem um organismo tentando manter a temperatura adequada enquanto algumas de suas partes insistem em remover os mecanismos de resfriamento. Não é exatamente confortável. Nos próximos meses, vocês ouvirão novamente falar sobre El Niño. Os cientistas acompanham a possibilidade de mais um episódio importante do fenômeno. Escutem essas pessoas. Elas passam a vida tentando compreender meus humores. Nem sempre acertam tudo, mas costumam acertar muito mais do que aqueles que acreditam que opinião vale o mesmo que conhecimento.

No Nordeste, especialmente, prestem atenção. Calor mais intenso. Secas prolongadas. Risco ampliado de queimadas. Não é motivo para pânico. Mas certamente é motivo para preparação. Aprendam uma coisa que eu pratico há bilhões de anos. ADAPTAÇÃO. Ela salva espécies. A arrogância, normalmente, faz o contrário. E já que estamos falando de queimadas, permitam-me um comentário. Jamais compreendi o fascínio de alguns humanos pelo fogo. Vocês chamam de queimadas ilegais. Eu costumo chamar de febre.

Cada área incendiada é uma temperatura que sobe. Cada animal queimado é uma história interrompida. Cada árvore destruída é uma sombra que deixa de existir. Quando alguém toca fogo numa vegetação, não está prejudicando apenas aquele pedaço de terra. Contribui para uma conta ambiental que será paga por pessoas que sequer participaram da decisão. Sinceramente, considero razoável que os responsáveis sejam punidos com rigor. Liberdade não é licença para transformar patrimônio coletivo em fumaça.

Mas não quero terminar esta conversa falando apenas dos problemas. Seria injusta. Ao longo dos últimos séculos, vocês também realizaram coisas extraordinárias. Criaram parques nacionais. Recuperaram espécies ameaçadas. Desenvolveram energias mais limpas. Reduziram a destruição em muitas regiões.

Vejo iniciativas importantes de preservação, monitoramento ambiental e redução do desmatamento. Sinais de que nem tudo está perdido. Aliás, nunca gostei muito da expressão “Está tudo perdido”. Enquanto existir gente disposta a proteger nascente, defender floresta, salvar animal, plantar árvore e ensinar criança a respeitar a natureza, ainda haverá futuro. Palavra que eu adoro. Talvez porque já tenha visto muitos.

Por fim, gostaria apenas de esclarecer um pequeno equívoco. Muitas pessoas dizem que precisam salvar o planeta. Agradeço a gentileza. Mas não é exatamente disso que se trata. Eu sobrevivi a coisas muito piores do que vocês. Meteoros. Supervulcões. Eras glaciais. Extinções em massa. Provavelmente continuarei aqui por muito tempo.

Não é se vocês vão me salvar. A pergunta é se conseguirão preservar as condições que tornam possível a própria existência de vocês. Eu continuo girando. A decisão sobre o restante, como sempre, está em suas mãos.

Com carinho, preocupação e uma pequena dose de ironia, sua Terra.

---

Nota do autor

Depois de ouvir a Terra, ainda que por meio da imaginação, resta uma constatação de que o futuro continua sendo uma escolha. Os sinais emitidos pela natureza são cada vez mais evidentes. A ciência os registra. A climatologia os acompanha. A meteorologia os projeta. As comunidades mais vulneráveis já os sentem na pele. Ainda assim, a história humana é também a história da superação de desafios que pareciam incontornáveis.

Ainda há tempo para corrigir a rota. Tempo para substituir a cultura do desperdício pela cultura do cuidado. Para trocar a devastação pela preservação. Para compreender que desenvolvimento e sustentabilidade não são adversários, mas parceiros indispensáveis de uma mesma jornada.

A humanidade já demonstrou ser capaz de feitos extraordinários quando decide unir inteligência, conhecimento e sensibilidade. Foi assim que vencemos doenças, ampliamos direitos, produzimos arte, ciência e civilização. Pode ser também assim que aprenderemos a habitar o planeta com mais respeito e responsabilidade.

O curso de colisão não é destino. É escolha. Que pode ser revista. Cada escolha bem feita hoje, faz a Terra menos ferida, rios mais limpos, florestas mais protegidas e uma humanidade finalmente consciente de que cuidar da natureza não é gesto de generosidade com o planeta. É compromisso com a própria vida.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




Assine a Newsletter do Portal Lupa1

De segunda a sexta, um resumo dos fatos que importam, direto no seu e-mail e de forma gratuita.