Por Willian Tito
25 de junho de 2026 às 18:14 ▪ Atualizado há 40 minutos
Alguns países foram desenhados por reis. Outros, por generais. O Brasil teve outro destino. Foi escrito por cozinheiras, canoeiros, lavradores, pescadores, comerciantes, parteiras, ferreiros, músicos, benzedeiras, mascates, professores e gente que desembarcou por aqui sem imaginar que jamais voltaria a ver o lugar onde nasceu. Todos somaram-se ao que já vinha de centenas de etnias que povoavam Pindorama.
Somos uma nação fundada por encontros. Alguns felizes. Outros profundamente dolorosos. Todos decisivos. Quando alguém diz "isso é muito brasileiro", quase sempre fala de alguma coisa que nasceu em outro continente.
O cafezinho veio da África. A laranja chegou da Ásia. A cana-de-açúcar atravessou oceanos. O trigo veio de longe. O arroz percorreu rotas milenares. O tomate saiu das Américas espanholas para conquistar o mundo antes de voltar ao nosso prato. O pastel ganhou sotaque oriental. A esfiha atravessou o deserto. A pizza aprendeu português. O cuscuz encontrou o Nordeste e decidiu ficar. A feijoada, cercada de mitos, tornou-se um dos maiores símbolos da mesa brasileira justamente porque o Brasil nunca foi uma receita pura. Foi sempre um caldeirão. Nossa culinária não tem dono. Tem convidados.
A língua portuguesa desistiu cedo da ideia de pureza. Ela escancarou as portas. Da língua dos povos originários vieram palavras sem as quais seria impossível reconhecer a terra. Abacaxi. Pipoca. Mandioca. Tatu. Capivara. Jacaré. Piranha. Peteca. Carioca. Igarapé. Cada uma delas carrega um pedaço da floresta. Da África chegaram palavras que hoje dançam naturalmente nas nossas conversas. Moleque. Cafuné. Caçula. Fubá. Dengo. Quitanda. Quiabo. Farofa. Samba. Axé.
Alguns vocábulos parecem abraçar. Eu acho "Cafuné" o mais bonito deles. Não descreve um gesto. Mas uma delicadeza para a qual muitos idiomas ainda procuram tradução. Dos árabes herdamos o comércio e um pequeno detalhe linguístico que passa despercebido. Toda vez que dizemos almofada, algodão, alfândega, alface, algazarra, aldeia ou álgebra, repetimos o antigo artigo árabe "al". Sem perceber, pronunciamos séculos de história.
Os italianos trouxeram massas, vinhos, cantorias e gestos que falam junto com as mãos. Os alemães espalharam cervejarias, cooperativas e disciplina comunitária. Os japoneses ensinaram novas formas de cultivar a terra, transformaram hortaliças em arte e provaram que delicadeza também pode alimentar. Os sírios e libaneses mudaram o comércio brasileiro e fizeram do quibe, da coalhada e da esfiha vizinhos inseparáveis do pão francês, que não nasceu na França como está cristalizado. Até o pão resolveu emigrar.
A história costuma falar das grandes imigrações. Existe uma silenciosa que acontece todos os dias. Das palavras que não pedem visto. Nenhuma enfrenta fila na alfândega. Elas apenas entram. Gostam da casa e ficam. Foi assim com "futebol". Com "internet". Com "show". Com "kimono". Com "sushi". "Caiaque" é uma palavra de origem inuíte. Dos esquimós.
Línguas inteligentes não levantam muros. Constroem dicionários. Alguns temem a influência estrangeira. A história ensina exatamente o contrário. As culturas mais fortes nunca foram as que viveram isoladas, mas as que souberam escolher, adaptar, reinventar e devolver ao mundo algo novo.
O Brasil possui um talento raríssimo. Não dispensa nada. Vai absorvendo. Não copia. Mistura. E quando mistura, cria. Transformou samba em patrimônio universal. Misturou ritmos africanos, europeus e indígenas. Fez da bossa nova um idioma que ainda hoje sustenta nossa referência musical ao mundo. Inventou a Tropicália. Criou um churrasco que conversa com mandioca, arroz, farofa, cebola assada, vinagrete e pão de alho sem pedir licença às fronteiras.
Nosso sotaque pratica diplomacia. Detalhe pouco lembrado. O Brasil recebeu milhões de imigrantes. Mas também enviou milhões de brasileiros para o mundo. Em algum lugar de Portugal, dos Estados Unidos, do Japão ou da Irlanda, existe alguém sentindo falta do arroz com feijão, do cheiro de chuva em terra quente, da conversa na calçada e do café passado na hora.
Toda imigração tem duas geografias. A do mapa e a da saudade. O preconceito pergunta: "De onde você veio?" A curiosidade questiona melhor: "O que você trouxe?" Quase sempre a resposta é surpreendente. Um tempero. Uma palavra. Música. Profissão. Oração. Receita de família.
Cada povo tem uma maneira diferente de enxergar o mundo. Civilizações crescem assim. Pela soma. Nunca pela subtração. O Dia Nacional do Imigrante lembra que um país não é constituído apenas de território. O Brasil é a maior prova disso. Somos descendentes de quem chegou, de quem permaneceu, resistiu e de quem recomeçou.
Nossa identidade nunca foi fotografia. Sempre foi álbum. Com muitas páginas em branco esperando novos rostos, sotaques, sabores e ricas histórias. A maior riqueza de um povo não é o que ele consegue preservar intacto. O Brasil não perdeu sua identidade ao abrir as portas ao mundo. Encontrou-a.
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O Dia Nacional do Imigrante é celebrado em 25 de junho porque a data encerra a Semana da Imigração, iniciada em 18 de junho, quando o navio Kasato Maru chegou ao Porto de Santos, em 1908, trazendo os primeiros imigrantes japoneses em caráter oficial. A homenagem ultrapassou e hoje celebra todos os povos que ajudaram a fazer do Brasil um país onde a identidade nunca foi sinônimo de pureza, mas de encontro.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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